domingo, 6 de setembro de 2026

Como o “Elon Musk da Argentina” está levando a tecnocracia para a Patagônia


Algumas passagens são bastante elucidatórias:
"(...) o policiamento preditivo de todo o planeta em tempo real, por meio de vigilância via satélite impulsionada por IA - ou seja, a consciência informacional total.(...) levar a vigilância planetária a um novo paradigma. (...) novo paradigma de "Inteligência Global Contínua", uma mudança em relação ao paradigma atual de Observação da Terra baseado em "imagens episódicas". (...) capacitar agências globais de inteligência e defesa, especialmente as dos Estados Unidos. (...) o governo monitoraria a atividade dos argentinos nas redes sociais utilizando IA para "prever crimes futuros"
Como o "Elon Musk da Argentina" está levando a tecnocracia para a Patagônia
19.Ago.2026
Por Whitney Webb e Mark Goodwin

O governo de Javier Milei tem apresentado a Patagônia a executivos do Vale do Silício, culminando no anúncio do projeto "Stargate Argentina" da OpenAI. O foco deste artigo, Emiliano Kargieman, é o homem que está, de fato, desenvolvendo o projeto argentino da OpenAI e que ostenta laços significativos com os setores militar e de inteligência dos Estados Unidos, a NASA, a Palantir e os gigantes do Vale do Silício que ajudaram a privatizar o espaço.


Whitney Webb | atua como escritora, pesquisadora e jornalista profissional, desde 2016. Ela escreveu para diversos sites e entre 2017 e 2020, integrou a equipe de redação e atuou como repórter investigativa sênior do Mint Press News. É editora colaboradora do Unlimited Hangout e autora do livro "Uma Nação sob Chantagem".

Mark Goodwin | ex-editor-chefe da Revista Bitcoin e autor de O Dólar-Bitcoin: Um Mono-mito Económico.

A Patagônia, situada na extremidade do continente sul-americano, sempre foi valorizada por suas paisagens impressionantes, águas cristalinas e vida selvagem singular. No entanto, para alguns, o valor dos tesouros naturais da região mudou. Já não se trata mais de proteger suas geleiras majestosas e florestas temperadas. Em vez disso, propõe-se agora que a Patagônia - com seu clima frio e abundantes recursos hídricos - abrigue uma nova espécie de "animal": o data center.

A proliferação de data centers tornou-se uma grande questão política nos últimos meses, especialmente nos Estados Unidos, em grande parte devido a preocupações com seu apetite voraz por recursos locais - o que eleva os preços dos serviços públicos para o consumidor comum e ameaça comunidades onde tais recursos já eram escassos. Muitos estão indignados com a forma como governos locais, eleitos para supostamente proteger os interesses da população, cederam facilmente às empresas de data centers, prometendo empregos que raramente se concretizam e que - quando surgem - em grande parte desaparecem após a conclusão da obra. Paralelamente, a tecnologia que muitos desses data centers sustentam - a Inteligência Artificial (IA) - também despertou preocupações próprias, centradas principalmente na usurpação de empregos e da criatividade humana pela IA, ao mesmo tempo em que gera retornos vultosos para os ultra-ricos e benefícios duvidosos para o restante de nós.

A exploração predatória da Patagônia por empresas de data centers tem sido amplamente facilitada pelas políticas do presidente argentino Javier Milei. Milei fez questão de estabelecer parcerias com o Vale do Silício, bem como com o atual governo dos EUA - ele próprio colonizado pelo Vale do Silício em um grau impressionante e sem precedentes. Ele também criou generosos esquemas de benefícios fiscais para que grandes empresas de tecnologia dos EUA operem no país, oferecendo, ao mesmo tempo, condições de praticamente nenhuma regulamentação - seja na construção, ou na operação - para aquelas que buscam instalar seus data centers em território argentino. No início deste ano, Milei escreveu um artigo de opinião no Financial Times no qual "convidava a IA a se libertar" e propunha permitir que empresas operadas por IA, sem qualquer envolvimento humano, atuassem em seu país. Embora alguns tenham apontado que tais declarações pareciam valorizar a atividade da IA ​​em detrimento da humana, esse não é um caso isolado. Por exemplo, Demián Riedel, um assessor do círculo íntimo de Milei, defendeu de forma controversa que os seres humanos são, na verdade, o maior problema da Argentina - especialmente na Patagônia argentina - pois representam um obstáculo à infraestrutura e ao desenvolvimento da IA ​​na região.

Riedel teve um papel de destaque na negociação de um grande acordo para o que virá a ser um data center verdadeiramente gigantesco em seu país: o Stargate Argentina. O Stargate Argentina é a mais nova "constelação" do projeto Stargate da OpenAI, lançado inicialmente em Jan.2025 com o objetivo de "investir US$ 500 bilhões ao longo dos 4 anos seguintes na construção de nova infraestrutura de IA para a OpenAI nos Estados Unidos". Poucos meses depois, em Mai.2025, a OpenAI anunciou, sem muito alarde, que planejava internacionalizar seu projeto Stargate por meio da nova iniciativa "OpenAI para países". Pouco tempo depois e com o envolvimento direto de Milei e de seus principais assessores, nasceu o Stargate Argentina.

Embora a OpenAI seja hoje um nome muito conhecido, sua parceira no Stargate Argentina - uma empresa chamada Sur Energy - era praticamente desconhecida. A Sur Energy não era apenas desconhecida internacionalmente; também não era conhecida dentro da própria Argentina, apesar de ter sido apresentada por Sam Altman, da OpenAI, como uma das "maiores empresas de energia" do país. Por trás dessa empresa, que parece não possuir ativos reais no país além de cartas de intenção, está um homem que talvez seja um pouco mais conhecido, pelo menos na Argentina.

Emiliano Kargieman é a face da Sur Energy, mas este é apenas o mais recente de seus empreendimentos em uma série de empresas que buscaram complementar a crescente influência das corporações do Vale do Silício sobre o setor público. Como será explorado neste artigo, os empreendimentos anteriores de Kargieman - particularmente a empresa de vigilância por satélite Satellogic - não apenas mantêm laços estreitos com figuras de destaque, atuais e antigas, da administração Trump, mas também se tornaram uma parte cada vez mais importante da rede de vigilância por IA que a Palantir, prestadora de serviços de inteligência dos EUA, vem consolidando. Em particular, a empresa deverá viabilizar - no próximo ano - o que antes era a ambição mais implausível da Palantir: o policiamento preditivo de todo o planeta em tempo real, por meio de vigilância via satélite impulsionada por IA - ou seja, a consciência informacional total.

No entanto, mais recentemente, por meio de seus esforços ao lado de Sam Altman para criar o Stargate Argentina, Kargieman revelou algumas verdades ocultas, não apenas sobre o data center que espera construir, mas sobre a expansão da infraestrutura de data centers em geral. Como será detalhado neste artigo, Kargieman admitiu casualmente que o objetivo da Stargate Argentina não é criar empregos para a população local (apesar do que alegaram alguns políticos argentinos), mas sim gerar dólares. Talvez o mais revelador de tudo seja a informação de que é provável que a OpenAI - sua parceira na Stargate Argentina - não venha a ser a usuária final desse enorme data center, o que sugere que a proeminente empresa de IA entrará em colapso com o estouro inevitável de uma bolha de dívida no setor de IA. Ao afirmar isso, ele ressalta que, independentemente de ser a OpenAI, ou não, alguém utilizará esse data center. Sendo assim, quem o utilizará e para qual finalidade? Com ​​base nas declarações de Kargieman e nas evidências disponíveis, buscamos responder a essas perguntas, revelando possibilidades cada vez mais prováveis ​​que terão implicações muito além da Argentina.

Um Passado Questionável

Criado no bairro de Palermo, em Buenos Aires, Emiliano Kargieman teve uma infância marcada por uma obsessão precoce por computadores e por um espírito rebelde. Por exemplo, ele aprendeu a consertar computadores aos 10 anos e chegou a ser expulso da escola por encher a sala do diretor com papel higiênico. Aos 15 anos, ele afirma ter criado sua 1ª empresa de software. Nessa época, ainda adolescente, ele também passou a integrar um coletivo de hackers chamado "Hackeado por Corujas", ou HBO. Segundo Matt Travizano, amigo de longa data de Kargieman (e, mais tarde, seu cofundador na Sur Energy), alguns membros do HBO usavam sua habilidade tecnológica para espionar conversas e comunicações de parlamentares argentinos. Embora o HBO parecesse atuar contra os interesses do Estado - com seus membros alegando defender ideais "anarquistas" - muitos deles (incluindo Kargieman) trabalhavam simultaneamente para o governo argentino.

Por exemplo, embora Kargieman tenha evitado mencionar isso em entrevistas à imprensa, um de seus antigos currículos registra que ele trabalhou para o Grupo Especial de Pesquisa em Segurança da Informação do governo argentino, dos 14 aos 17 anos, período que coincidiu com sua atuação no coletivo HBO. Esse grupo estava vinculado à DGI (Dirección General Impositiva), a Direção-Geral de Impostos da Argentina. O fato é notável, visto que, enquanto trabalhava para esse órgão estatal, o coletivo de hackers de Kargieman também espionava, supostamente, autoridades eleitas.

Em 1997, quando Kargieman tinha 20 anos, ele e o coletivo HBO começaram a trabalhar diretamente para a AFIP (Administración Federal de Ingresos Públicos, ou Administração Federal de Receita Pública) da Argentina. Naquele ano, a DGI - que havia empregado Kargieman durante sua adolescência por meio do Grupo Especial de Pesquisa em Segurança da Informação - passou a ficar subordinada à AFIP. Pouco antes disso, em 1996, Kargieman havia criado uma empresa de segurança cibernética que mais tarde ficaria conhecida como Core Security Technologies. Ele fundou a empresa com 5 amigos, incluindo Gerardo Richarte, Lucio Torre e Jonathan Altzszul, que haviam trabalhado anteriormente no Escritório de Projetos Especiais da AFIP.

Emiliano Kargieman em um evento TEDx na Argentina, em 2011. Sua palestra intitulava-se "Hacking Space" – Fonte

Richarte, Torre e alguns funcionários de longa data da Core Security, como Norberto Kueffner, seguiram Kargieman posteriormente para a Satellogic, a empresa de vigilância por satélite que ele viria a criar. Vale destacar que Kueffner é atualmente o Diretor de TI da administração de Javier Milei. Outro veterano da Core Security, Ariel "Wata" Waissbein, chefia agora a Agência Federal de Cibersegurança (AFC) da Argentina. Mais um veterano da Core Security que também foi trabalhar na Satellogic foi Aviv Cohen, um ex-oficial de inteligência israelense que atuou, por algum tempo, como chefe de "projetos especiais" da Satellogic.

Em 1998, um ano após se ver envolvida em questões com a AFIP da Argentina, a empresa de Kargieman, a Core Security, passou a focar expressamente no mercado dos EUA. Pouco depois, ela atraiu atenção significativa de empresas sediadas nos EUA - como Apple e Lockheed Martin - e do setor público. Entre os principais clientes do setor público americano da Core Security, logo, figuraram o Departamento de Segurança Interna (DHS), a DARPA (agência de pesquisa militar dos EUA), a NASA e a NSA.

No mesmo ano, 1998, a Core Security foi reconhecida como uma "Endeavor Entrepreneur" (Empreendedora Endeavor) pela Fundação Endeavor - uma organização sem fins lucrativos fundada no ano anterior por 2 americanos, Linda Rottenberg e Peter Kellner. Embora haja muito a dizer sobre a Endeavor, que teve destaque em uma investigação anterior do Unlimited Hangout, a afinidade da organização com uma pequena empresa argentina de software não causa surpresa, dada a sua relação estreita com o país sul-americano. Para começar, Rottenberg e Kellner se conheceram na Argentina. Muito antes de nomes como Edgar Bronfman Jr., Reid Hoffman e Pierre Omidyar doarem quantias vultosas aos entusiastas do empreendedorismo, a primeira história de sucesso da Endeavor foi o MercadoLibre, de Marcos Galperin. Galperin tornou-se o homem mais rico da Argentina - pelo menos no papel - graças ao sucesso de sua empresa, antes de integrar o conselho da Endeavor, quando a organização, antes sem fins lucrativos, incorporou um componente de capital de risco às suas atividades. A Endeavor, que na época contava com a assessoria de Galperin, acabou financiando a empresa posterior de Kargieman, a Satellogic, e Galperin hoje integra o conselho de administração da Satellogic.

Em 2001, a Core Security, de Kargieman, também atraiu a atenção da Pegasus Capital. Conforme observado pelo iProfessional, a Pegasus - a partir de Fev.2001 - começou a "colaborar" com a Core no desenvolvimento do modelo de negócios, da estratégia de crescimento e da estrutura organizacional da empresa, entre outros aspectos. A Pegasus Capital foi criada por Craig Cogut, uma figura-chave no escândalo financeiro dos junk bonds (títulos de alto-risco) envolvendo o banco Drexel Burnham Lambert, hoje extinto. O departamento de títulos de alto-risco da Drexel, liderado por Michael Milken, envolvia-se em atividades flagrantemente ilegais e utilizava esses títulos para impulsionar aquisições de grandes corporações pelos notórios "predadores corporativos" daquela época, antes do colapso do banco. Mais especificamente, Cogut era o advogado que aconselhava o departamento de títulos de alto-risco - comandado por Milken e marcado por escândalos - quanto à legalidade de suas transações, incluindo aquelas que levaram à condenação criminal de Milken. Após o colapso da Drexel, Cogut uniu-se a um grupo de ex-funcionários do banco liderado por Leon Black - hoje mais conhecido por sua estreita ligação com o falecido traficante sexual e seu "consultor financeiro", Jeffrey Epstein - para cofundar a Apollo Advisers (atualmente Apollo Global Management), em 1990. Cogut deixou a Apollo para fundar a Pegasus, em 1996. Desde então, a Pegasus tornou-se um actor-chave em diversas iniciativas de finanças "verdes" apoiadas pela ONU, incluindo algumas que envolveram diretamente a outra empresa de Kargieman, a Satellogic.

Em 2006, Kargieman criou a Aconcagua Ventures como uma joint venture com a Pegasus Capital. Esta firma tinha, declaradamente, o objetivo de "investir em startups de alta tecnologia na América Latina para desenvolvê-las como negócios globais". Até 2009, no entanto, ela havia investido apenas na Core Security e na empresa Popego, na qual Kargieman atuou como CEO e diretor, em 2007. Naquela época, a Popego era descrita como uma empresa de software de inteligência artificial (IA).

Emiliano Kargieman em 2011 – Fonte

A Popego, assim como a Aconcagua Ventures, apoiou uma organização sem fins lucrativos lançada em 2009 com o objetivo de criar uma moeda virtual vinculada à reputação online de cada pessoa. Essa organização chamava-se The Whuffie Bank, e Emiliano Kargieman consta como um de seus fundadores. O The Whuffie Bank, lançado em uma conferência da TechCrunch, em 2009, visava "promover mudanças na web recompensando usuários que causassem um impacto positivo na rede com essa moeda digital semelhante ao karma". Essa organização "sem fins lucrativos" planejava monitorar de perto os usuários de redes sociais, "acompanhando suas atividades em diversos sites, incluindo ações como comentários, postagens e muito mais".

Como a TechCrunch explicou mais tarde:
“Ao realizar ações positivas, você ganha Whuffies e os perde quando faz algo que a organização considera prejudicial. [...] O algoritmo leva em conta 'endorsements' públicos - ou seja, o número de vezes que os tweets de um usuário são retuitados, ou que uma publicação no Facebook recebe uma curtida. Ele também considera quem está fazendo o endosso e o conteúdo das mensagens publicadas.”
O site do Whuffie Bank destacava que o objetivo da organização era promover a "mudança social" por meio de sua moeda virtual; por sua vez, outro co-fundador do Whuffie Bank, Santiago Siri, descreveu a meta como "repensar o futuro do dinheiro". Enquanto trabalhava no Whuffie Bank, Siri foi nomeado Moldador Global pelo Fórum Econômico Mundial devido aos seus esforços para promover uma moeda digital baseada em reputação, que recompensa, ou pune, usuários com base em suas atividades e falas online. O Whuffie Bank representa uma iniciativa pioneira de vincular moedas digitais ao comportamento e à reputação online dos usuários - esforços que persistem hoje sob outras formas e que têm gerado preocupações quanto à ascensão dos "sistemas de crédito social".

Embora o projeto Whuffie tenha chegado ao fim, o empreendimento seguinte de Kargieman, a Satellogic, rapidamente o colocou lado-a-lado com os próprios pioneiros responsáveis ​​pela digitalização do sistema financeiro dos EUA - como o ex-secretário do Tesouro Steve Mnuchin e o atual secretário de Comércio Howard Lutnick (anteriormente CEO da Cantor Fitzgerald, a maior corretora de títulos públicos do país). Antes de sua empresa de satélites de observação da Terra de baixa altitude decolar, Kargieman - que já havia prestado serviços à NASA - encontrava-se no norte da Califórnia, na mesma base da Força Aérea onde o Vale do Silício assumiu, de forma não oficial, o controle do programa espacial do país, transferindo definitivamente para o setor privado aquilo que antes era o grande orgulho do governo dos EUA.

A Plataforma de Lançamento da Satellogic

Segundo as 1ªs interacções de seu site, a Satellogic foi fundada em 2010 por "2 graduados do Programa de Pós-Graduação da Singularity University, sediada no Ames Research Center da NASA", com o objetivo de construir uma "infraestrutura compartilhada em órbita baixa da Terra para disponibilizar dados de satélite em tempo real a uma nova geração de desenvolvedores de aplicativos". Emiliano Kargieman e seu co-fundador, Andrew Fursman, conceberam as ideias que dariam origem à Satellogic enquanto participavam desse programa de pós-graduação. O programa ocorria no Moffett Federal Airfield, no norte da Califórnia - um dos locais de maior destaque na ampla colaboração da NASA com o setor privado.

O aeródromo já foi uma instalação da Marinha dos EUA. Até o ano de fundação da Satellogic, abrigava o 21º Esquadrão de Operações Espaciais da Força Aérea. Hoje, o local é utilizado pela Guarda Aérea Nacional da Califórnia e, notavelmente, pelo 7º Grupo de Operações Psicológicas da Reserva do Exército dos EUA - um influente grupo de apoio a ações militares que "envolve o compartilhamento de informações específicas com públicos estrangeiros para influenciar as emoções, motivações, o raciocínio e o comportamento de governos e cidadãos", incluindo "guerra cibernética e técnicas avançadas de comunicação em todas as formas de mídia".

O Ames Research Center da NASA também é conhecido por abrigar uma das maiores estruturas independentes (sem colunas internas de sustentação) do mundo: o Hangar One. Construído em 1933, o edifício ocupa uma área superior a 8 acres (aproximadamente 3,2 hectares) e é famoso por apresentar neblina e outros fenômenos meteorológicos em seu vasto interior. Além disso, o local passou a abrigar os jatos particulares de executivos atuais e antigos do Google - Larry Page, Sergey Brin e Eric Schmidt - após um plano de reforma de US$ 33 milhões proposto pela empresa à NASA, em 2011. Em Nov.2014, a NASA, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) e o Conselho Regional de Controle de Qualidade da Água da Califórnia chegaram a um acordo no qual a Planetary Ventures LLC, subsidiária do Google, assinou um contrato de arrendamento de 60 anos no valor de US$ 1,16 bilhão, incluindo planos para uma reforma significativa do famoso hangar. Notavelmente, a versão mais antiga do site da Satellogic registrada em arquivos exibe uma imagem do Hangar One, apresentando uma estrela de 5 pontas que adorna um grande portão de acesso e outra situada no topo do edifício. Isso muito provavelmente se deve ao fato de que, em 2009, a NASA, o Google e a equipe do Ames Center colaboraram na criação do programa de incubação que deu origem às ideias fundamentais da Satellogic.

Uma foto do Hangar One exibida na página inicial da Satellogic – Fonte

A primeira investigação do Unlimited Hangout sobre a Satellogic - Dívida do Alto: O Golpe dos Créditos de Carbono, de Abr.2024 - concentrou-se principalmente nas parcerias público-privadas da empresa relacionadas à implementação de um esquema de mercado de carbono baseado em blockchain e monitoramento via satélite. Para evitar a repetição de informações sobre a empresa de Kargieman já abordadas anteriormente, este artigo focará em situar a Satellogic no contexto da transformação, ao longo de décadas, do programa espacial dos EUA: de uma iniciativa financiada pelo orçamento federal do setor público para uma potência do setor privado. Com base nas evidências, parece que as principais figuras e instituições responsáveis ​​pelas parcerias da NASA com a indústria de tecnologia deram origem não apenas à SpaceX, de Elon Musk - a fornecedora preferencial de "missões de lançamentos-compartilhados" da Satellogic - mas também à própria Satellogic. Ao que tudo indica, a Satellogic foi criada essencialmente para apoiar tanto o programa espacial quanto os programas de vigilância em massa dos EUA, ambos privatizados.

Dívida vinda do alto: O golpe dos créditos de carbono | A América Latina está sendo silenciosamente forçada a aderir a um esquema de mercado de carbono por meio de obrigações contratuais regionais - impostas por satélites de uma empresa ligada à inteligência dos EUA - que visa criar uma cadeia-lateral inter-continental, corroer a soberania nacional e local e vincular a vida baseada em carbono ao sistema monetário baseado em dívida por meio de uma  de Bitcoin.

A Singularity University e o Programa Espacial Privatizado

Em Set.2008, o autor e futurista Ray Kurzweil uniu forças com o empreendedor espacial e presidente da Fundação X PRIZE, Peter Diamandis, para fundar a Singularity University (SU). A decisão de formar essa parceria surgiu depois que Diamandis leu o livro de Kurzweil de 2005, A Singularidade Está Próxima, no qual o autor argumenta que a inteligência das máquinas logo superará a inteligência humana e que, nesse momento, humanos e máquinas deveriam se financiar em um coletivo transumanista. Diamandis participou de Kurzweil após a leitura e sugeriu a parceria no projeto que viria a se tornar a Singularity University.


O objetivo da SU é educar os "líderes de amanhã" em tecnologias emergentes que Kurzweil - e presumivelmente, Diamandis - acreditam que permitirão à humanidade acelerar a chegada desse evento de "singularidade" e consequentemente, um futuro transumanista para a humanidade. O site da Singularity University destaca que a instituição desenvolveu, como resultado, "um ecossistema global de tecno-otimistas". Esse termo parece ser uma referência ao "Manifesto Tecno-Otimista" do investidor de risco (e atual conselheiro do Pentágono) Marc Andreessen, no qual ele defende a adoção irrestrita de tecnologias "transformadoras", como a IA, em um cronograma acelerado, sem qualquer consideração sobre quem poderia sofrer consequências negativas, ou sobre o que poderia ser prejudicado. Kurzweil é, notadamente, uma espécie de "padroeiro" do tecno-otimismo, e o manifesto de Andreessen retrata, em linhas gerais, a ideologia que a Singularity University busca incutir em seus graduados "tecno-otimistas".

A ideologia "tecno-otimista" apresenta uma sobreposição considerável com a tecnocracia. Essa convergência é detalhada extensivamente por Iain Davis em seu livro O Estado Tecnocrático Negro. Em sua obra, Davis define a tecnocracia como uma forma de governança que alega maximizar a eficiência por meio da gestão "científica" e da engenharia social da população humana, utilizando mecanismos autocráticos de controle sociopolítico e comportamental tecnológico. Em um sistema tecnocrático, a gestão e a engenharia social do "animal humano" ficam a cargo de "especialistas" não eleitos nas áreas de ciência, engenharia, ou tecnologia - os chamados tecnocratas. Essa forma de governança tem sido amplamente adotada pelos homens mais ricos do Vale do Silício, incluindo Andreessen e outros nomes como Elon Musk e Peter Thiel.

Poucos meses após sua criação, a recém-formada Singularity University estabeleceu-se no Centro Ames da NASA, depois de garantir financiamento de "fundadores corporativos" junto ao Google e à ePlanet Ventures. Embora o Google dispense apresentações, a ePlanet Ventures é uma empresa de capital de risco associada à DFJ (Draper Fisher Jurvetson), de Tim Draper - cujo comitê de investimentos chegou a contar com a participação dos 3 sócios da DFJ. Um desses sócios, Steve Jurvetson - assim como Diamandis, fundador da SU - é amigo de longa data de Elon Musk, da SpaceX e ocupa cargos nos conselhos de administração tanto da Tesla quanto da SpaceX. Também se atribui a ele o mérito de ter socorrido Musk, em 2008, com grandes investimentos em ambas as empresas. No entanto, Jurvetson dificilmente pode ser considerado o único responsável pela sobrevivência da SpaceX. Outros 2 homens envolvidos naquele resgate também desempenharam um papel de destaque na fundação da SU, onde a Satellogic nasceu.

O então diretor do Centro Ames, Simon "Pete" Worden, pronunciou-se por ocasião da fundação da SU, afirmando: "O campus da NASA Ames tem uma história de orgulho no apoio a inovações pioneiras e a Singularity University se insere nessa tradição". Worden havia sido escolhido para chefiar o Ames por seu amigo de longa data, o Dr. Michael Griffin, que assumiu o cargo de administrador da NASA, em 2005. Tanto Worden quanto Griffin haviam integrado o controverso Escritório da Iniciativa de Defesa Estratégica (SDIO) — conhecido popularmente como "Guerra nas Estrelas" devido à sua formalização, no início da década de 1980, sob o governo do presidente Ronald Reagan - tendo Worden assumido o posto de Griffin como chefe de tecnologia naquele programa de defesa antimísseis voltado para o espaço.

Simon “Pete” Worden, próximo ao NASA Ames Center, com sua fantasia favorita: a de “pastor de cabras” – Fonte

Durante sua atuação na SDIO, tanto Griffin quanto Worden foram responsáveis ​​por avanços significativos em áreas de grande relevância para a atual indústria espacial comercial. Para começar, o trabalho deles ajudou a abrir caminho para o desenvolvimento de constelações de satélites de observação da Terra em órbita baixa (LEO), como aquelas lançadas posteriormente pela Satellogic. O aprimoramento das capacidades de transmissão via satélite, de modo geral, foi alcançado por meio do projeto Clementine da SDIO - um satélite "pequeno, de baixo custo e desenvolvido rapidamente, utilizado para testar tecnologias de sensores e propulsão para interceptadores de mísseis" e que também "mapeou a Lua". Além disso, após seu período na SDIO, Griffin trabalhou na Orbital Sciences (sediada na Virgínia), empresa pioneira no uso de "um sistema para coleta de dados de locais remotos utilizando satélites em órbita baixa da Terra". Worden é considerado um "inovador e promotor fundamental de pequenos satélites nos primeiros anos de seu desenvolvimento" durante o período em que esteve na SDIO.

Worden e Griffin também desempenharam papéis cruciais no desenvolvimento comercialmente viável do foguete "DC-X" - reutilizável e capaz de decolagem e pouso verticais - o que preparou o terreno para a construção, pela SpaceX, dos foguetes Falcon 1, também reutilizáveis ​​e com capacidade de decolagem e pouso verticais. De fato, o próprio Musk disse a Jess Sponable, ex-gerente da SDIO, em 2013, que a SpaceX estava "apenas dando continuidade ao excelente trabalho do projeto DC-X"! Embora muitos detalhes fujam ao escopo deste artigo, a gestão de Griffin à frente de uma NASA com recursos escassos, somada à iniciativa de Worden de integrar o programa espacial ao Vale do Silício, por meio do centro Ames, gerou acusações por parte de funcionários de Ames de que ambos faziam "parte de uma conspiração para destruir o programa espacial dos Estados Unidos".

Michael Griffin empossado como administrador da NASA pelo vice-presidente Dick Cheney em 2005 – Fonte

Poucas pessoas foram tão responsáveis ​​pela tomada da indústria espacial pelo setor privado quanto Griffin, Worden e Diamandis - todos eles com vínculos singulares com Elon Musk e com a fundação (e o sucesso posterior) da SpaceX.

Em Ago.1993, o "DC-X" - precursor do Falcon 1 - realizou sua 1ª decolagem em White Sands, no Novo México, durante testes conduzidos pela contratada McDonnell Douglas para a SDIO. Griffin, então vice-diretor de tecnologia da SDIO, declarou que o "DC-X representava o que havia de melhor em pesquisa e desenvolvimento governamental". O DC-X realizou seu último vôo, em 1995, antes de ser atualizado para o modelo DC-XA; este foi rapidamente transferido para a estrutura interna da NASA, apenas para ter o projeto encerrado após um vôo final, em 31.Jul.1996.

Em Mai.1996, mês anterior ao encerramento do projeto DC-X, Diamandis fundou oficialmente o X Prize. O prêmio oferecia US$ 10.000.000 à equipe que conseguisse ultrapassar com sucesso o limite da atmosfera inferior. Embora a equipe vencedora só tenha alcançado esse feito em 2004, o prêmio impulsionou a indústria espacial comercial privada e influenciou a adoção de novas formas de captação de recursos e gestão de projetos na NASA. O comitê original da X Prize Foundation, anunciado em Dez.1996, contava com a participação de Worden e do astronauta Buzz Aldrin, entre outros. Como o prêmio foi anunciado inicialmente em 1996, as muitas equipes concorrentes tiveram de passar anos desenvolvendo seus foguetes e tecnologias, resultando em uma espera de quase uma década para que a nova indústria espacial finalmente decolasse.

Nesse intervalo, no ano 2000, Diamandis recebeu um convite de Bill Gross - fundador da Idealab, uma das primeiras incubadoras de startups de tecnologia - para assumir o cargo de CEO de uma nova empresa. Essa nova companhia, chamada BlastOff!, recebeu um orçamento de US$ 1 bilhão para organizar uma missão privada à Lua. Em um vídeo de 2008 sobre o Google Lunar X Prize - iniciativa que reuniu oficialmente a NASA (sob a liderança de Griffin), o Google (financiador da SU) e o X Prize de Diamandis - Diamandis descreve a equipe da BlastOff!. ...tendo acabado por decidir utilizar o ICBM russo "Dnepr" para lançar sua missão lunar. A BlastOff!, que operava em modo sigiloso, acabou encerrando suas atividades em Jan.2001.

Da esquerda para a direita: Rob McEwen, James Cameron, Peter Diamandis, Elon Musk e Jim Gianopulos – Fonte

Apenas alguns meses antes, em Out.2000, Musk foi substituído por Peter Thiel como CEO da PayPal/X.com - empresa que também havia surgido da incubadora Idealab (sob o nome Confinity), contando com um investimento inicial de Gross e da Idealab em Jan.2000. Além disso, o 1° membro do conselho da PayPal foi o Vice-Presidente da Idealab, Scott Bannister; ele havia se formado na faculdade com o fundador da PayPal, Max Levchin, e foi o responsável por apresentar Levchin a Peter Thiel. Como investigações anteriores do Unlimited Hangout buscaram demonstrar, a Idealab - apesar de pouco conhecida hoje - está intimamente ligada às origens primordiais e ao imenso sucesso subsequente de empresas como Google, PayPal, Palantir, Tether, PolyMarket e possivelmente, a SpaceX de Musk.

Sem emprego e prestes a receber uma quantia vultosa com a venda da PayPal para o eBay, Musk voltou sua atenção para as estrelas, Marte e além. No ano seguinte à sua saída da PayPal, em 2001, Musk conheceu Griffin na A Sociedade de Marte, dando início a uma longa amizade entre ambos. A Sociedade de Marte, havia sido fundada em 1998, tendo Griffin como membro fundador de seu Comitê Diretor. Aldrin, membro do comitê da Fundação Preço X e a abundância do Centro Ames da NASA, logo, se juntaram a ele. Musk fez uma grande doação e, posteriormente, passou a integrar o Comitê Diretor ao lado de Griffin. Desde então, Musk tem abertamente promovida a ideia de estabelecer uma tecnocracia em Marte. A afinidade com a tecnocracia parece ser uma característica de família, visto que seu avô materno liderou, previamente, o movimento tecnocrata no Canadá.

Entre 2001 e 2002, Musk e Griffin realizaram várias viagens à Rússia na tentativa de comprar foguetes Dnepr para iniciar experimentos de viagens espaciais - dando continuidade, de certa forma, ao trabalho da BlastOff!, iniciativa patrocinada pela Idealab. Em uma dessas viagens, ao considerar excessivo o preço dos mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) russos, Musk elaborou um modelo para fabricar os foguetes necessários a baixo custo. Segundo relatos, ele concebeu os planos para a SpaceX durante o vôo de volta, ao lado de Griffin. Griffin recebeu uma oferta para atuar como Engenheiro-Chefe na SpaceX, mas decidiu, em vez disso, assumir os cargos de presidente e diretor de operações (COO) da In-Q-Tel, a empresa de investimentos da CIA. Alegadamente, Musk deu ao filho o nome de Griffin Musk em homenagem a um amigo e, mais tarde, em 2022, concedeu a Griffin um cargo de consultor na Castelion, uma subsidiária da SpaceX. A Castelion possui capacidade de produção em massa de mísseis hipersônicos e conta também com Lisa Porter - que, assim como Griffin, tem passagem pela In-Q-Tel - em seu conselho consultivo.

Griffin deixou a In-Q-Tel para assumir o comando da NASA em Abr.2005, após ser escolhido pelo presidente George W. Bush. Apenas uma semana depois de sua nomeação, Griffin reuniu-se com Musk na sede da NASA. Duas mudanças importantes no status quo da NASA ocorreram logo no início da gestão de Griffin: cortes orçamentários drásticos, como os que afetaram o Centro de Pesquisa Ames em Nov.2005 e a autorização da chamada Autoridade de Premiação. Esse conceito inovador de captação de recursos e gestão orçamentária havia sido pioneiramente implementado pelo X Prize, de Diamandis. Poucos anos depois, em 2008, o Google, a NASA e o X Prize colaboraram na realização do já mencionado Google Lunar X Prize. Griffin foi citado como um "defensor do uso da Autoridade de Premiação que temos na NASA desde 2005".

O administrador da NASA, Michael Griffin (à esquerda), reúne-se com o CEO da SpaceX, Elon Musk (à direita), na sede da NASA, em Washington – Fonte

Griffin usou sua posição na NASA para defender ainda mais a indústria espacial comercial e privada e quando a SpaceX, de Musk, quase faliu após 3 lançamentos de foguetes fracassados, Griffin e seu amigo Worden vieram em socorro de Musk. Em Abr.2006, após a explosão de um Falcon 1 em seu voo inaugural, o Pentágono escolheu Worden para liderar a investigação sobre o incidente, uma vez que a DARPA havia ajudado a financiar os lançamentos. Logo no mês seguinte, em Mai.2006, Worden foi escolhido por Griffin para liderar o crucial Centro de Pesquisa Ames. 2 anos depois, em Dez.2008, a NASA sob a liderança de Griffin firmou parceria formal com a X Prize e o Google e concedeu US$ 3,5 bilhões em contractos à SpaceX e à Orbital Sciences - antiga empresa de Griffin - salvando a empresa de Musk, que passava por dificuldades na época, além do já mencionado aporte privado feito por Jurvetson.

No mês seguinte, Jan.2009, a Singularity University foi anunciada por Diamandis, da X Prize, com o apoio da NASA sob a gestão de Griffin e financiamento do Google e da ePlanet Ventures (empresa ligada a Jurvetson), sendo sediada no Centro de Pesquisa Ames, então liderado por Worden. Reportagens iniciais sobre o anúncio chegaram a listar Worden como membro fundador oficial da SU, embora ele nunca apareça nas versões posteriores da história de fundação da instituição. Quando Worden finalmente anunciou sua saída em 2015 do Centro de Pesquisa da NASA, ele descreveu especificamente os "9 anos que passou em Ames" como "os mais agradáveis ​​de seus 40 anos de serviço público". Worden acrescentou:
"Nos últimos 9 anos, lançamos dezenas de satélites pequenos e de baixo custo - e ajudamos a impulsionar uma nova e importante indústria neste setor... O Ames forneceu tecnologias de acesso para o emergente setor de lançamentos espaciais comerciais. Ajudamos a lançar pequenos satélites em parceria com diversas nações. E acolhemos e inspiramos milhares de estudantes."
É difícil dissociar as reflexões de Worden sobre seu período no Ames da decisão de Kargieman de fundar a Satellogic. Kargieman não apenas se interessou pelo setor de lançamentos espaciais comerciais e por "satélites pequenos e de baixo custo" enquanto cursava o programa de pós-graduação "tecno-otimista" associado a Worden, como também as próprias instalações do Ames, onde esse programa era sediado, aparentemente serviram de berço para a Satellogic. Assim, mais do que apenas inspirar a ideia da Satellogic, o Ames parece ter atuado como incubadora da empresa. Além disso, é difícil separar as origens da Satellogic de suas conexões com grandes atores da privatização de programas militares e espaciais. Muitas dessas empresas já foram abordadas em investigações anteriores do Unlimited Hangout - incluindo SpaceX, Tether e Palantir - sem falar em seus parceiros públicos dispostos dentro do governo dos EUA. Vale ressaltar que essas 3 empresas estabeleceram, posteriormente, parcerias diretas e significativas com a Satellogic.

Ademais, basta observar os membros do conselho da Satellogic, tanto os antigos quanto os atuais, para compreender que a empresa de Kargieman está longe de ser uma simples startup de tecnologia; ela opera muito mais como uma engrenagem de um mecanismo complexo e multifacetado - concebido pelo governo dos EUA, mas que opera com fins lucrativos como uma empresa privada.

Conselho de administração da Satellogic, conforme exibido em seu site em Abr.2024Fonte

Como mencionado anteriormente, muito se escreveu sobre a fundação e o financiamento da Satellogic em Dívida [vinda] de Cima, mas os desdobramentos mais recentes merecem ser relembrados para contextualizar este artigo. Para começar, em 2022, o atual Secretário de Comércio, Howard Lutnick - que mantém laços estreitos com a emissora de stablecoins (e futura investidora da Satellogic) Tether - ajudou a conectar a empresa de Kargieman ao ex-Secretário do Tesouro Steve Mnuchin, que então financiou a Satellogic por meio de sua firma, a Liberty Strategic Capital. Tanto Lutnick quanto Mnuchin passaram a integrar o conselho da Satellogic naquele mesmo ano. Outro membro do conselho que também ingressou na empresa naquele ano possui laços íntimos com o Pentágono: o Diretor-Geral Sênior da Liberty Strategic Capital, General Joseph Dunford (da reserva), ex-presidente do Estado-Maior Conjunto durante o 1° governo Trump. Além disso, a Cantor Fitzgerald, empresa de Lutnick, desempenhou um papel fundamental na abertura de capital da Satellogic, sob o código de negociação $SATL.

Em Fev.2022, a Satellogic também firmou uma parceria oficial com a Palantir, a versão privatizada do controverso programa Consciência Total da Informação do Pentágono. Em um comunicado à imprensa, a Satellogic afirmou que a parceria com a Palantir visava "aproveitar a plataforma Foundry da Palantir" para "acelerar processos de negócios, a entrega rápida de produtos de imagem, o treinamento de modelos de IA e a integração de dados em toda a organização". A parceria também fez da Satellogic uma fornecedora majoritártia de dados de vigilância espacial para o governo dos EUA por intermédio da Palantir, que mantém contratos com todas as 18 agências de inteligência norte-americanas, com as Forças Armadas e com diversos outros órgãos federais dos EUA. Segundo o comunicado da Satellogic, como parte do acordo, "a Satellogic fornecerá aos clientes governamentais da Palantir nos EUA acesso imediato às imagens de satélite de alta resolução da Satellogic, visando gerar insights analíticos para uma variedade de casos de uso voltados a missões específicas".

Kargieman posa com um dos satélites da Satellogic em 2023 Fonte

Poucos meses após anunciarem sua parceria, em Abr.2022, a Satellogic e a Palantir lançaram seu "primeiro satélite com capacidade de Edge AI" ao espaço, com o auxílio da missão Transporter 4 da SpaceX. A atuação conjunta desse trio confere credibilidade direta à teoria descrita anteriormente, segundo a qual os atores comuns por trás das 3 empresas estavam construindo uma infraestrutura colaborativa - neste caso, envolvendo satélites, IA e foguetes. De acordo com o comunicado de imprensa, o "novo NewSat com capacidade de Edge AI" é fruto de um "projeto de 6 meses" no qual a "Satellogic adaptou seu programa de carga útil hospedada e seu hardware de computação de borda (edge ​​computing)" para "executar a plataforma de Edge AI da Palantir". O "projeto conjunto" visa "oferecer [...] novas capacidades que terão ampla aplicabilidade em diversos tipos de missão, tanto no setor governamental quanto no comercial". Essa colaboração tecnológica permite a alternância rápida entre diferentes algoritmos, dependendo da localização do satélite. O comunicado acrescenta:
"Podemos alternar dinamicamente entre modelos e encadear capacidades, dependendo dos requisitos da missão e do terreno. Por exemplo, quando o satélite passa sobre um porto, podemos executar os modelos de detecção de nuvens, segmentação de imagens e detecção de embarcações; já ao passar sobre uma cidade, podemos alternar para modelos de detecção de veículos e edificações."
Ao todo, o hardware da Satellogic é capaz de executar 6 modelos adicionais de terceiros - incluindo Palantir Omni e Palantir Overcast, além de Xailient, Pilot.ai e Mind Foundry. Segundo a Palantir, "a colaboração entre Palantir e Satellogic representa um passo significativo para acelerar a entrega e melhorar drasticamente a qualidade dos dados enviados aos clientes". A publicação da Palantir no blog sobre a parceria concluiu que:
"[E]ssa aplicação pioneira de Edge AI no espaço visa servir de base para análises avançadas capazes de embasar soluções oportunas para enfrentar prioridades globais críticas, como o combate às mudanças climáticas, a prevenção de desastres e a melhoria da resposta a emergências."
Um dos anúncios mais recentes da Satellogic diz respeito ao lançamento iminente de uma nova constelação de satélites chamada Merlin. Com lançamento previsto para Outubro deste ano e ativação em algum momento de 2027, a Merlin "dará suporte ao monitoramento contínuo de locais ilimitados em todo o mundo", ao "possibilitar o mapeamento diário de todo o planeta com resolução de um metro". Presumivelmente, isso também concederá à sua parceira de análise, a Palantir, a mesma capacidade.

Ao anunciar a Merlin, Kargieman declarou o seguinte:
"Até agora, as organizações precisavam escolher entre cobertura global com baixa resolução, ou monitoramento de alta resolução, de um número limitado de locais. A Merlin elimina esse dilema e viabiliza o monitoramento contínuo em escala planetária."
Em uma entrevista concedida no início deste ano à Forbes Argentina, Kargieman observou que a Merlin logo "nos permitirá fazer coisas que jamais imaginamos. Com a IA [e a Merlin], podemos começar a prever o futuro". Conforme apontado em reportagens anteriores do Unlimited Hangout, um foco principal e de longa data da Palantir é a análise preditiva, particularmente o policiamento preditivo - frequentemente chamado de "pré-crime".

A Merlin exemplifica os esforços da Satellogic para levar a vigilância planetária a um novo paradigma. Kargieman referiu-se a esse novo paradigma de "Inteligência Global Contínua", uma mudança em relação ao paradigma atual de Observação da Terra baseado em "imagens episódicas". Seus esforços nesse sentido visam capacitar agências globais de inteligência e defesa, especialmente as dos Estados Unidos. Isso se reflete não apenas nos contratos atuais e novos da Satellogic com o governo dos EUA, mas também em suas parcerias recentes com a SynMax - uma empresa de análise de dados de vigilância baseada em IA apoiada pelo co-fundador da Palantir, Joe Lonsdale da 8VC  - e na nomeação de um dos principais arquitetos do controverso Projeto Maven das forças armadas dos EUA (um software de mira de armas impulsionado por IA) como consultor estratégico.

Stargate Argentina

Enquanto conduzia a mudança de rumo da Satellogic em direção à vigilância por satélite baseada em IA - voltada para a chamada "Inteligência Global Persistente" - Kargieman decidiu criar mais uma empresa, desta vez com o objetivo de capitalizar sobre o "boom" da IA. Ele fundou a Sur Energy, em 2025, juntamente com Matt Travizano e Stan Chudovsky. Travizano era um argentino que também chefiava a Sur Ventures - empresa que investiu na Satellogic - e mantinha interesses comerciais de longa data na Califórnia. Ele também é creditado por ter feito a ponte entre a administração de Javier Milei e figuras de destaque do Vale do Silício. Travizano faleceu no ano passado enquanto escalava o Monte Shasta, na Califórnia, pouco depois de fundar a Sur Energy. Já Chudovsky havia atuado anteriormente como Vice-Presidente de Mensagens na Meta/Facebook e antes disso, como Vice-Presidente de Crescimento e Estratégia Global no PayPal.

Pouco após o seu lançamento e mesmo antes de ter um site presente, a Sur Energy anunciou uma parceria de grande porte com a OpenAI - a empresa de IA liderada por Sam Altman e desenvolvedora do ChatGPT que, embora originalmente sem fins lucrativos, passou a operar com fins lucrativos. Altman é um protegido de Peter Thiel, o bilionário cofundador do PayPal e da Palantir, cuja recente mudança para a Argentina e cujas reuniões com Milei e altos funcionários do governo, no início deste ano, ganharam as manchetes internacionais.

Executivos da OpenAI reúnem-se com Javier Milei (ao centro) e alguns de seus principais assessores, incluindo Demián Riedel - Fonte

A parceria entre a Sur Energy e a OpenAI, formalizada em Out.2025 por meio de uma carta de intenções, visa desenvolver um data center de US$ 25 bilhões na região da Patagônia argentina, denominado Stargate Argentina. A Oracle, empresa de infraestrutura de dados ligada à CIA e liderada por Larry Ellison, provavelmente operará o Stargate Argentina após sua conclusão, segundo Kargieman. Vale ressaltar que a Oracle é parceira da OpenAI no projeto Stargate sediado nos EUA, o qual - segundo a OpenAI - agora possui ambições globais. Kargieman também afirmou que a construção do Stargate Argentina começará este ano e terminará em 2027, embora a localização planejada para o empreendimento não tenha sido divulgada publicamente. É importante notar que a administração de Milei esteve íntima e diretamente envolvida nas discussões que levaram à assinatura da carta de intenções entre a Sur Energy e a OpenAI.

Ao anunciar o projeto, Sam Altman, da OpenAI, referiu-se à Sur Energy como uma das "principais empresas de energia" da Argentina, o que não corresponde à realidade. Após o anúncio, até mesmo a Bloomberg observou que a Sur Energy era totalmente desconhecida no setor e não possuía absolutamente nenhum ativo no país. Posteriormente, a OpenAI esclareceu que a Sur Energy atuava, na verdade, como a "desenvolvedora de energia e infraestrutura" do projeto, e não como a fornecedora.

Relatórios sugerem que a Nucleoeléctrica, empresa de energia nuclear de controle estatal majoritário, poderá desempenhar um papel no projeto. Um fato relevante é que o governo de Milei anunciou planos para privatizar a Nucleoeléctrica poucas semanas antes do anúncio do Stargate Argentina. A Forbes apontou o envolvimento de Demián Reidel, ex-presidente da Nucleoeléctrica, no projeto Stargate Argentina. Antes de liderar a Nucleoeléctrica, Reidel havia sido um importante conselheiro de Milei e um dos arquitetos das políticas de sua administração para IA e energia nuclear. Nessa função, ele fez a declaração controversa de que a Argentina - e a Patagônia, em particular - estava pronta para o desenvolvimento de IA, mas que seu principal problema era ser excessivamente povoada por argentinos.


Posteriormente, foi revelado que a Sur Energy havia assinado dois memorandos de entendimento com 2 outras fornecedoras de energia argentinas antes de anunciar o projeto em Outubro do ano passado. Essas empresas são Central Puerto e Genneia. Central Puerto é o antigo fornecedor de energia estatal da área de Buenos Aires, que foi privatizado no início da década de 1990 e desde então se expandiu para várias outras áreas do país. A segunda, Genneia, é uma empresa interessante para explorar neste contexto, pois mostra como a administração de Milei se envolveu com a rede de apoio aos piores inimigos ostensivos de Milei.

A Genneia foi criada em 1991, operando inicialmente como empresa distribuidora de gás natural com a denominação Emgasud. Ela foi renomeada para Genneia em 2012, após uma mudança para energias renováveis. Este pivô foi impulsionado pela introdução de uma nova safra de acionistas, nomeadamente o empresário argentino Jorge Horacio Brito, o seu filho Jorge Pablo Brito e o seu parceiro de negócios de longa data e cunhado Delfín Jorge Ezequiel Carballo, todos os quais ingressaram no conselho da empresa um ano antes da mudança de marca, em 2011.

Brito foi o chefe de longa data do Grupo Macro da Argentina, que inclui e foi construído em torno do Banco Macro. A primeira empresa bancária de Brito foi inicialmente lançada como uma empresa financeira durante a década de 1970, quando a Argentina estava sob ditadura. A sua empresa estava intimamente relacionada com figuras que mais tarde se tornariam altos funcionários do governo de Raúl Alfonsín, depois da Argentina ter saído da ditadura e rumo à "democracia". Uma dessas figuras foi Mario Brodersohn, que era secretário do Tesouro de Alfonsín quando Brito e o Banco Macro obtiveram licenças bancárias no final da década de 1980. Brito alegadamente usou os seus laços estreitos com o governo para obter acesso privilegiado à informação. Num exemplo notório, o seu banco comprou US$ 3 milhões antes do desastroso "Plano Primavera" do governo Alfonsín, que viu o peso argentino ser fortemente desvalorizado. Ele foi investigado, mas nunca acusado.

Sob o governo subsequente de Carlos Menem e uma onda de privatizações, Brito voltou a receber tratamento preferencial. Quando a província de Salta privatizou o seu banco regional, o Banco Macro de Brito foi o único comprador apresentado. Outros bancos provinciais foram privatizados de forma semelhante, rendendo anualmente ao Banco Macro milhões de dólares dos contribuintes apenas como pagamento pela manutenção das contas bancárias provinciais.

Durante a crise económica argentina de 2001, o Banco Macro de Brito saiu vencedor, comprando bancos em colapso e expandindo a sua presença. Entretanto, o banco participou no notório "corralito", uma política governamental segundo a qual os fundos dos depositantes eram essencialmente congelados durante mais de um ano e os argentinos só podiam levantar US$ 250/semana dos bancos nacionais. Durante esse período, o peso argentino foi novamente fortemente desvalorizado e os depositantes perderam uma parte significativa da sua riqueza.

Posteriormente, Brito tornou-se extremamente próximo do centro do poder político da Argentina, mais uma vez sob a dinastia política Kirchner de "centro-esquerda". Isto coincidiu com a nomeação de Brito para presidir a ADEBA, Associação de Bancos Privados de Capital Argentino. Brito foi novamente um grande beneficiário das políticas da era Kirchner, incluindo a decisão de fazer com que os bancos ADEBA gerenciem os pagamentos de pensões. Ele também foi investigado por seu aparente papel na movimentação de fundos suspeitos em um dos piores escândalos de corrupção da era Kirchner, o Caso Ciccone. Ele estaria supostamente envolvido em vários outros escândalos de corrupção que assolaram as presidências de Kirchner, mas nunca foi devidamente investigado. A sua intimidade com o poder político continuou mesmo sob o governo "de direita" de Mauricio Macri, levando alguns meios de comunicação a chamar Brito de "o banqueiro amigo do poder político, que nunca perde".

No entanto, parece que a estratégia de Brito para estar o mais próximo possível do poder político não consistia apenas em obter lucros maciços, mas também em impedir investigações sobre as suas aparentes negociações criminosas. O Banco Macro, sob Brito, era uma empresa ávida pela lavagem de dinheiro. Quando as autoridades argentinas começaram a multar bancos por violarem práticas de combate ao branqueamento de capitais (AML), em 2010, o Banco Macro foi multado exatamente por isso 5x em menos de um ano. Alguns anos mais tarde, em 2015, o Banco Macro teve algumas das suas atividades temporariamente suspensas pela Comissão Nacional de Valores Mobiliários (CNV) da Argentina por continuar a não aplicar até mesmo as práticas mais básicas de LBC. O banco emitiu então um breve comunicado de imprensa (sem fornecer provas) de que tinha, de facto, cumprido e graças às ligações políticas de Brito, a suspensão foi levantada após apenas uma semana.

Jorge H. Brito (à esquerda) e seu filho Jorge P. Brito (à direita) em uma foto sem data - Fonte

Brito acabou sendo forçado a deixar o Banco Macro devido ao seu envolvimento no Caso Ciccone - o já mencionado escândalo de corrupção ligado ao kirchnerismo - e a preocupações com lavagem de dinheiro. Ele retornou ao comando do banco, em 2020, quando ele e seus associados acreditaram que a repercussão do escândalo havia diminuído, apenas para morrer em um acidente de helicóptero bizarro alguns meses depois. Após sua morte, seu filho, Jorge Pablo Brito, assumiu o controle de seus negócios em parceria com Delfín Jorge Ezequiel Carballo, que era sócio de longa data e cunhado de Jorge Brito.

Quando Javier Milei concorreu à presidência da Argentina, ele o fez opondo-se ao que chamava de "casta" política - um grupo que incluía não apenas políticos, mas também empresários que viabilizavam e frequentemente se beneficiavam de atos descarados de corrupção política. O Banco Macro, sob a gestão de ambos os Brito, tem sido um pilar financeiro fundamental para essa casta política; alguns ex-políticos argentinos o chamam de "as políticas [establishment] do Banco da Argentina" devido à sua relação duradoura e muitas vezes, insidiosa com políticos do país. Pode-se dizer que a família Brito e o Banco Macro constituem um ponto de apoio financeiro crucial que permitiu que essa "casta" política funcionasse e se expandisse de forma desenfreada. Milei chegou a se referir privadamente, a Jorge Pablo Brito - Presidente do Conselho da Genneia - como um dos principais financiadores da oposição ao seu partido.

No entanto, sob o governo de Milei, a Genneia, de Brito, recebeu tratamento preferencial em relação a outras empresas nacionais de energia e obteve contratos governamentais milionários. Isso compromete tanto o suposto compromisso de Milei de combater a "casta" arraigada da corrupção política argentina quanto sua defesa da livre concorrência de mercado. Talvez o interesse comum de Brito e Milei em transformar a Patagônia em um Cubo [hub] de IA tenha sido suficiente para que Milei fizesse vista grossa.

Contudo, mesmo os acordos com a Genneia, bem como com a Central Puerto e a Nucleoeléctrica, podem não ser suficientes para suprir a demanda energética da Stargate Argentina, projeto de Kargieman. Segundo comunicados à imprensa e relatórios, a Stargate Argentina foi planejada para ter uma capacidade de até 500 MW, destinada a "dar suporte à computação avançada de inteligência artificial". Isso significa que o data center consumirá cerca de 500.000 quilowatts-hora (kWh) por hora e, consequentemente, aproximadamente 4,38 bilhões de kWh anualmente. Como resultado, o Stargate Argentina, uma vez em pleno funcionamento, teria como meta utilizar um suprimento de eletricidade equivalente a cerca de 3,4% de toda a eletricidade atualmente produzida no país a cada ano. Em contrapartida, nos Estados Unidos, o conjunto de todos os data centers - sejam eles voltados para IA, ou outras finalidades - consome cerca de 4% a 5% da produção nacional de eletricidade anualmente. O próprio Kargieman afirmou que a Argentina "gera e consome aproximadamente 14 gigawatts de energia em termos de capacidade" e que, apenas com o seu data center, "a Argentina passaria de um consumo de 14 para 14,5 gigawatts". O próprio Kargieman reconheceu que esse salto representa uma "porcentagem significativa".

Além disso, o Stargate Argentina declarou que utilizará exclusivamente fontes de energia renovável, as quais representam, atualmente, pouco menos da metade da produção total de energia da Argentina. Alguns veículos de imprensa latino-americanos observaram que as ambições do Stargate Argentina serão difíceis de concretizar, visto que, para atingir a capacidade anunciada, a totalidade das fontes de energia renovável existentes na Patagônia argentina - desde o gás queimado em tochas [flaring] em Vaca Muerta, na província de Neuquén, até as usinas eólicas e hidrelétricas das regiões mais ao sul - não seria suficiente para suprir a demanda do projeto.

Um corredor de data centers na província de Neuquén, proposto pelo governo local. Especula-se que a Sur Energy escolherá esse local para o Stargate Argentina - Fonte

No entanto, isso não significa necessariamente que o projeto seja inviável. Por exemplo, a província de Neuquén, em particular, apresenta potencial para gerar muito mais energia ao longo do tempo, embora um aumento na produção de energia provavelmente devesse preceder a implementação completa do Stargate Argentina, conforme planejado atualmente. De fato, em uma entrevista recente, Kargieman mencionou essa questão, afirmando que a Sur Energy planeja "construir a infraestrutura de geração e distribuição de energia para abastecer o data center", mas que também pretendia utilizar, em parte, a infraestrutura energética já existente. Além disso, o governo Milei convenceu em atrair investimentos relacionados à IA - incluindo data centers - por meio de seu novo regime de incentivos fiscais, conhecido como RIGI, que oferece benefícios tributários para grandes investimentos no país, frequentemente de origem estrangeira. O Stargate Argentina é um beneficiário conhecido do regime RIGI. Esse fator, somado à orientação desregulamentadora de Milei, poderia permitir que data centers se instalassem rapidamente na Patagônia, especialmente considerando que a construção e a operação dessas instalações são praticamente inteiramente desregulamentadas na Argentina (por exemplo, elas não enfrentam praticamente nenhum obstáculo legal relacionado ao seu possível impacto no meio ambiente, ou nas populações locais).

"Uma Fonte de Dólares"

Assim como em muitos outros países, os argentinos vêem a IA com cautela e, consequentemente, autoridades locais e federais têm promovido a construção de centros de dados - especialmente na Patagônia - como projetos e investimentos capazes de gerar oportunidades significativas de emprego para a população local. Por exemplo, o Ministro de Planejamento da província patagônica de Neuquén, Ruben Etcheverry, afirmou que um projeto de "corredor" de centros de dados em Neuquén "abrirá novas oportunidades econômicas para a população local". Paralelamente, o presidente argentino, Javier Milei, declarou no início deste ano que, embora "muitos temam que não haverá trabalho suficiente na Argentina de amanhã", essas novas indústrias - como energia, mineração, processamento de minerais críticos, infraestrutura digital e inteligência artificial - "irão mais do que suprir a demanda por mão de obra dispensada pelas indústrias tradicionais e com salários muito melhores".

Captura de tela da entrevista recente de Kargieman ao jornal La Nación, com a manchete: Emiliano Kargieman: “Um data center de IA não é uma fonte de empregos para a Argentina. É uma fonte de dólares” – Fonte

No entanto, a principal figura por trás da Stargate Argentina, Emiliano Kargieman, aparentemente discorda. Em Dezembro passado, em uma entrevista ao jornal La Nación, Kargieman afirmou que os centros de dados de IA, incluindo seu próprio projeto, "não são uma fonte de empregos na Argentina". Em vez disso, ele argumentou que eles são, na verdade, "uma fonte de dólares". Mais especificamente, Kargieman declarou:
"Para a construção, os data centers exigem a contratação de milhares de pessoas. Para sua operação subsequente, empregam cerca de cem pessoas. Não é uma fonte direta de emprego. [...] Não é dessa forma que esse investimento contribuirá para o país [...] O desenvolvimento de infraestrutura de IA contribui para o país não apenas gerando uma fonte de receita proveniente da exportação de serviços de computação - dólares. Ele também nos permite um posicionamento estratégico e melhora a competitividade das empresas e a eficiência do Estado.”
As afirmações de Kargieman de que os centros de dados não são uma fonte direta de emprego são corroboradas por investigações locais e regionais. Uma dessas investigações, realizada em conjunto por veículos de mídia brasileiros e argentinos, constatou que os centros de dados na América do Sul "não criam vagas de emprego locais e grande parte dos recursos de investimento [destinados à criação de empregos] acaba sendo direcionada a equipes tecnológicas que, geralmente, são importadas".

Assim, até mesmo Kargieman reconheceu que projetos como a Stargate Argentina não visam à criação de empregos para a população local. Diante dessa admissão, vale ressaltar novamente que um dos principais arquitetos da política de IA de Milei e de sua aliança com o Vale do Silício - Demián Riedel - havia afirmado anteriormente que as populações locais argentinas eram o principal obstáculo ao desenvolvimento da infraestrutura de IA.

Javier Milei e a Transformação Digital da Argentina

Uma vez que o Stargate Argentina esteja em operação, quem provavelmente mais se beneficiará desse enorme data center na Patagônia? Segundo Kargieman, talvez não seja sua principal parceira na Argentina - a OpenAI. Em entrevista recente ao jornal La Nación, Kargieman observou que Sam Altman, da OpenAI, reconheceu para ele (também publicamente) o que muitos investidores vêm alertando com crescente intensidade nos últimos meses: a existência de uma "bolha" no mercado de IA. Kargieman afirma que a existência de tal bolha é "normal", acrescentando que "todas as grandes revoluções industriais foram acompanhadas por bolhas". Quanto àqueles que investiram em fábricas, ou outras infraestruturas durante bolhas associadas a revoluções industriais passadas, Kargieman declarou que "quem investiu naquela construção vai à falência, mas alguém acaba utilizando o edifício". Assim, ele considera irrelevante se o Stargate Argentina chegará a ser utilizado pela OpenAI, ou não e, em suas palavras, parece sugerir que a própria OpenAI pode desaparecer após uma inevitável correção do mercado.

Sam Altman (esquerda) e Javier Milei (direita) durante a viagem de Milei ao Vale do Silício, nos EUA, em maio de 2024 – Fonte

Na visão de Kargieman, não importa "se é a OpenAI, ou não [que utilizará o data center projetado pela Stargate Argentina]; o que importa é a demanda de longo prazo do setor". Em resposta a essa afirmação, o entrevistador disse: "Então, se a OpenAI não obtiver sucesso, haverá outros interessados ​​em utilizar esse tipo de infraestrutura". Kargieman concordou e afirmou que "a infraestrutura será utilizada para alguma finalidade, independentemente de ser pela OpenAI, ou não".

Embora Kargieman pareça sugerir que a OpenAI talvez não seja a usuária final do Stargate Argentina - atuando, na verdade, como uma aceleradora corporativa de sua construção - ele aponta um dos atores que, em sua opinião, acabará utilizando o Stargate Argentina e para qual finalidade: o Estado argentino. Nessa mesma entrevista, Kargieman declarou que o Estado estaria entre os principais beneficiários do Stargate Argentina, pois, na próxima década, "os Estados passarão por uma transformação para se tornarem mais eficientes com o uso de IA".

Kargieman acrescentou então o seguinte:
"Isso só pode ser feito se os dados dos cidadãos forem tratados em um ambiente sobre o qual o Estado detenha controle jurisdicional. Um data center desse tipo na Argentina proporciona ao país um ponto de partida fundamental para uma transformação profunda na eficiência e na transparência da atuação estatal, com base no controle de dados. Esses aspectos não são irrelevantes; trata-se de uma função estratégica de longo prazo."
A própria OpenAI compartilha uma visão semelhante. Por exemplo, um dos comunicados de imprensa da OpenAI sobre o Stargate Argentina afirmava que:
"Além de desenvolver a infraestrutura necessária para impulsionar a IA, estamos discutindo oportunidades com o governo argentino para promover a adoção da IA ​​em todo o país - como parte da nossa iniciativa 'OpenAI for Countries' (da qual o Stargate Argentina faz parte) - começando pelo próprio governo."
Se o governo da Argentina estiver entre os prováveis ​​usuários finais do Stargate Argentina, é importante examinar para que fins o governo já utiliza a IA e de que outras formas planeja empregá-la.

Embora muito se tenha escrito sobre as políticas de laissez-faire de Milei em relação à IA e às empresas - incluindo a permissão para que operem no país companhias compostas exclusivamente por IA, sem qualquer intervenção humana - o uso da IA ​​pelo próprio governo tem sido amplamente ignorado.

Uma das primeiras políticas internas do governo Milei relacionadas à IA surgiu em 2024, quando a então ministra da Segurança, Patricia Bullrich, anunciou que o governo monitoraria a atividade dos argentinos nas redes sociais utilizando IA para "prever crimes futuros". Para isso, o governo Milei criou uma nova subunidade do Ministério da Segurança denominada Unidade de Inteligência Artificial Aplicada à Segurança. A nova unidade atua no "patrulhamento de redes sociais abertas, aplicativos e sites da internet" com o objetivo de "detectar ameaças potenciais, identificar movimentações de grupos criminosos, ou prever tumultos". A unidade também utiliza IA para "analisar imagens de câmeras de segurança em tempo real, a fim de detectar atividades suspeitas, ou identificar pessoas procuradas por meio de reconhecimento facial", ao mesmo tempo em que "patrulha grandes áreas com drones, realizando vigilância aérea". Os dados dessa vigilância aérea também alimentariam os sistemas de IA utilizados pela nova subunidade. A unidade identifica ainda "transações financeiras suspeitas, ou comportamentos anômalos, que possam indicar atividades ilegais" por meio de suas atividades de monitoramento automatizado, utilizando também "algoritmos de aprendizado de máquina para analisar dados históricos de criminalidade e, assim, prever crimes futuros". O programa é notavelmente semelhante a uma proposta dos EUA apresentada durante o 1° governo Trump, em 2019. Esse programa, conhecido como SAFEHOME, buscava utilizar análises de IA em postagens de americanos nas redes sociais para identificar possíveis "sinais de alerta" em indivíduos propensos a cometer atos de violência, permitindo que o governo interviesse ("interrompesse" a ação) antes que tais indivíduos pudessem cometer um acto ilegal. Mais, ou menos, na mesma época em que a Unidade de IA Aplicada à Segurança foi criada na Argentina, também foi noticiado que o governo liderado por Milei planejava substituir funcionários públicos e organizações governamentais por IA, reforçando ainda mais o compromisso de Milei com a "transformação digital" do Estado argentino.

Mais recentemente, em maio deste ano, o governo de Milei anunciou uma nova "inovação" em política pública de IA: a criação de um "gêmeo digital" para cada argentino, com base em suas atividades online monitoradas pelo Estado. Esse "gêmeo" seria então cruzado com outros bancos de dados governamentais e utilizado para gerar previsões que embasariam políticas públicas. Isso, vale notar, guarda semelhanças com o conceito de futarquia, que busca utilizar mercados de previsão para definir políticas públicas. Ao anunciar a medida no X (antigo Twitter), Milei afirmou que "a Argentina antecipa o futuro, porque o futuro não espera" e classificou essa nova "inovação" política como um marco global.

Ao anunciar a política, o governo argentino declarou buscar "um Estado que não apenas observe a realidade depois que os problemas já ocorreram, mas que também tenha capacidade de antecipação, simulação e prevenção". Descreveu, então, o "gêmeo digital" como "uma ferramenta voltada para transformar dados em capacidade de previsão e no desenho estratégico de políticas públicas". O vídeo publicado por Milei no X, ao anunciar a medida, destacava que o uso desse "gêmeo digital social" permitiria ao Estado "prever o futuro" de uma pessoa, desde a infância até a "autonomia" (ou seja, a vida adulta), a fim de "antecipar o impacto em cada etapa [da vida]". Uma imagem do vídeo mostra a ministra do Capital Humano da Argentina, Sandra Pettovello, conversando com representantes das Nações Unidas e da União Europeia como parte do projeto. Também é exibido o logotipo da Amazon Web Services (AWS), uma empresa contratada pela CIA, sugerindo que ela também estaria envolvida no projeto. No entanto, o Ministério esclareceu posteriormente que "nenhuma empresa externa" participaria do desenvolvimento do sistema.

Uma imagem do vídeo de anúncio do “gêmeo digital” publicado por Milei no X, mostrando Sandra Pettovello conversando com autoridades da ONU e da UE como parte da nova política - Fonte

Vale destacar que o conceito de "gêmeo digital" foi desenvolvido na década de 1960 pela NASA, organização que - como explicado anteriormente - desempenhou um papel fundamental na trajetória de Kargieman e em sua decisão de fundar a Satellogic. Como já mencionado, a empresa de Kargieman está agora mudando de rumo para oferecer "Inteligência Global Persistente", remapeando o planeta diariamente por meio de vigilância via satélite de alta resolução para seus clientes - em sua maioria, agências de inteligência e defesa. É importante ressaltar que a NASA tem recentemente defendido, a importância dos gêmeos digitais para a "manutenção preditiva" de sistemas complexos. Quando aplicado à sociedade argentina como um todo, o sistema de gêmeo digital proposto provavelmente criará sinergia com a nova unidade de IA do Ministério da Segurança, que já concentra seus esforços no "policiamento preditivo".

Como observado anteriormente, a constelação de satélites Merlin, da Satellogic - cujo lançamento é iminente e que contará com recursos nativos de IA - permitirá, segundo Kargieman, "realizar feitos que jamais imaginamos serem possíveis", como "começar a prever o futuro" por meio de vigilância planetária impulsionada por IA. A Satellogic e Kargieman não estão sozinhos nessa empreitada; publicações do setor apontaram recentemente que a "análise preditiva baseada no espaço" representará uma mudança de paradigma. Um alto executivo de uma empresa canadense de vigilância via satélite declarou recentemente:
"A análise preditiva ganhará importância crescente daqui para a frente. Seja no combate ao terrorismo, ou no monitoramento de fenômenos naturais, como incêndios florestais, a análise preditiva auxiliará o planeta de uma maneira totalmente nova."
Assim, Kargieman - cuja empresa Stargate Argentina está destinada a servir como um repositório de dados essencial para esse tipo de programa de IA preditiva com aplicações em segurança nacional - também está comprometido com a análise preditiva por meio de seu outro empreendimento principal, a Satellogic. Vale ressaltar que a Satellogic e suas iminentes capacidades preditivas estão sendo comercializadas, em grande parte, para o aparato de segurança nacional dos EUA e sua rede de contratantes privados. Com a Argentina figurando como signatária do novo e altamente sigiloso acordo Pax Silica dos EUA, tanto a Argentina sob o governo Milei quanto os interesses comerciais associados a Kargieman buscam transformar o país em um ponto estratégico para a projeção de poder dos EUA no que diz respeito a tecnologias emergentes e às aplicações - frequentemente orwellianas - dessas tecnologias para o controle da população e a supressão de dissidências.

Conforme relatado anteriormente pelo Unlimited Hangout, uma rede de antigos projetos de contraterrorismo e vigilância - anteriormente abrigados pelo Escritório de Consciência da Informação (IAO) da DARPA, órgão das Forças Armadas dos EUA já extinto - foi privatizada após gerar significativa controvérsia pública e intensas preocupações com a privacidade no início dos anos 2000. A privatização dessa rede de programas foi viabilizada, em grande parte, por um único homem: Peter Thiel. Uma das empresas de Thiel, a Palantir - a versão privatizada do programa Consciência Total da Informação (TIA) do IAO - mantém uma parceria estreita com a Satellogic de Kargieman, como mencionado anteriormente. O Total Information Awareness foi criado explicitamente para combater o "terrorismo" após os ataques de 11.Set.2001, mas tratava todos como suspeitos. Seu objetivo era utilizar análises preditivas para deter "terroristas" - ou qualquer pessoa assim definida - antes que pudessem perpetrar qualquer ataque.

Como observado anteriormente neste artigo, a Satellogic parece integrar outra rede correlata de empresas surgidas do esforço para privatizar aspectos importantes do controverso Escritório de Iniciativa de Defesa Estratégica (SDIO), ou projeto "Guerra nas Estrelas", da era Reagan - um projeto também intimamente ligado ao idealizador do IAO da DARPA, John Poindexter. Conforme apontado em reportagens anteriores do Unlimited Hangout, Poindexter também desempenhou um papel fundamental nos esforços de Thiel para privatizar o Total Information Awareness sob a forma da Palantir. Hoje, a Palantir oferece análise preditiva com aplicações para segurança nacional e aplicação da lei, tendo como objetivo final prevenir crimes e atos terroristas antes que ocorram - tal como o programa Consciência Total da Informação.

Peter Thiel decidiu recentemente mudar-se para a Argentina, em grande parte devido às estratégias de governança, às políticas públicas e à ideologia de Javier Milei. Pouco antes de Thiel se reunir com Milei e altos funcionários do governo, o governo argentino anunciou sua iniciativa de "gêmeo digital social", levando alguns veículos de imprensa nacionais e internacionais a especular sobre uma conexão entre o encontro de Thiel com Milei e o anúncio do projeto. Muitos desses veículos destacaram o papel de Thiel tanto como cofundador da Palantir quanto como atual presidente do conselho da empresa. Não surpreende que a Palantir ofereça funcionalidades de gêmeo digital como parte de seu conjunto de produtos, tanto para segurança nacional quanto para aplicações corporativas.

Thiel é, naturalmente, também muito conhecido por suas opiniões políticas controversas. Embora frequentemente se apresente publicamente como libertário, Thiel claramente não tem interesse em defender as liberdades civis do público em geral, a julgar por seu histórico empresarial. Suas opiniões políticas são mais bem classificadas como neorreacionárias, visto que ele é hoje uma figura central na crescente rede de bilionários "tecno-otimistas" do Vale do Silício que são abertamente transumanistas e buscam fragmentar e privatizar o setor público em cidades-estado "inteligentes". Da mesma forma, Milei apresenta-se publicamente como libertário e defensor máximo da liberdade, enquanto suas decisões de governo - particularmente as relacionadas à IA - demonstram que ele é, na prática, um defensor mínimo da liberdade no que diz respeito à população argentina. Sua abordagem de "motosserra" para reduzir o tamanho do Estado tem sido aplicada intensamente a órgãos que forneciam benefícios sociais, ao passo que o tamanho das agências governamentais voltadas para vigilância e "segurança" cresceu exponencialmente.

As evidências deixam claro que o que está surgindo na Argentina sob o governo de Milei é um teste-piloto para o que provavelmente se tornará um modelo global de tecno-autoritarismo; nele, o capitalismo impulsionado pela IA (provavelmente com mínima intervenção humana) desfruta de liberdade total, enquanto os seres humanos não gozam de praticamente nenhuma. Aí reside o potencial para um retorno perturbador às operações de compartilhamento de dados utilizadas para caçar e assassinar dissidentes durante a era das ditaduras sul-americanas apoiadas pela CIA - como a Operação Côndor, da qual a ditadura argentina participou com entusiasmo. Nesse contexto, vale ressaltar que a ditadura argentina tentou criar "papéis-gêmeos" de seus cidadãos ao cruzar dados de vigilância (como gravações de escutas telefônicas, etc.) para prever seus comportamentos prováveis ​​e determinar se representariam uma ameaça ao regime. Esses programas rudimentares de eliminação de dissidentes baseados em dados estavam intimamente ligados aos crimes perturbadores e generalizados que aquelas ditaduras cometeram contra seus próprios cidadãos.

Com a tecnologia atual, as iniciativas de "gêmeos digitais" de Milei e outros programas baseados em IA poderiam rapidamente ressuscitar e aprimorar a infraestrutura de atrocidades do passado ditatorial argentino, permitindo a prática de crimes contra a humanidade e contra a liberdade humana com uma rapidez sem precedentes e em escala muito maior. Nessas iniciativas, Milei não tem aliado interno mais importante do que Emiliano Kargieman, da Stargate Argentina, que está construindo tanto a rede global de vigilância quanto o repositório terrestre de dados que tornarão tudo isso possível.--FIM DA TRADUÇÃO

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