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quarta-feira, 18 de agosto de 2021

PL 3951/2019 limita uso do dinheiro em espécie

O PL 3951/2019 limita o uso do dinheiro em espécie rumo à instauração de um sistema financeiro 100% digital:

"Dispõe sobre as condições para o uso de dinheiro em espécie em transações de qualquer natureza, bem como para o trânsito de recursos em espécie em todo o território nacional."


Apresentado como sendo da autoria do Senador Flávio Arns (REDE/PR)...


... o PL 3951/2019 tem a sua consulta pública no momento em que este artigo está sendo escrito, com 4 votos de aprovação e 4 votos de desaprovação...


... e encontra-se pronto para a pauta na Comissão.


A completa digitalização do sistema financeiro passa, também, pela desconstrução da face material da mesma, como, p.ex., extinguindo agências bancárias de atendimento ao público (reduzindo a quantidade de funcionários e virtualizando o atendimento, colocando os clientes cada vez mais longe dos bancos), ou tirando de circulação o dinheiro em espécie. 

O PL 3951/2019 dá um grande passo nesse sentido, buscando limitar o uso do dinheiro em espécie:

Art. 1º. A presente lei estabelece regras e condições para o uso de dinheiro em espécie em transações de qualquer natureza, bem como para o trânsito de recursos em espécie em todo o território nacional. 

Art. 2º. É vedado o uso de dinheiro em espécie em transações comerciais ou profissionais de qualquer natureza que envolvam montantes iguais ou superiores a R$ 10.000,00 (dez mil reais), ou seu equivalente em moeda estrangeira, valor que poderá ser alterado por decisão do Conselho de Controle de Atividades Financeiras."

(...)

Art. 3º. É vedado o pagamento de boletos, faturas ou documentos equivalentes de valor igual ou superior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais), ou o seu equivalente em moeda estrangeira, em espécie, devendo ser realizados por meios [quais meios? Digitais, óbvio, apesar do PL não especificar] que assegurem a identificação do pagador e do beneficiário, valor que poderá ser alterado por decisão do Conselho de Controle de Atividades Financeiras."

Art. 7º. É vedado o trânsito de recursos em espécie em valores superiores a R$ 100.000,00 (cem mil reais), ou seu equivalente em moeda estrangeira, salvo se comprovadas a origem e a destinação lícita dos recursos. Esse valor poderá ser alterado por decisão do Conselho de Controle de Atividades Financeiras.

Eles justificam que "Esta proposta, formulada com base no célebre trabalho “Novas Medidas contra a Corrupção”, tem como objetivo prevenir o cometimento de crimes de lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores, bem como a utilização dos sistemas econômicos para a prática dos ilícitos (...)", porém, tais medidas "contra a corrupção" estão indo de encontro à instauração de um sistema financeiro 100% digital. 

Quais as consequências para o indivíduo, para as famílias, para as empresas e para o país em geral, a instauração de um modelo financeiro 100% digital? 

Estas consequências têm vindo a ser listadas em artigos anteriores (ver abaixo) e os alertas têm vindo a ser lançados aqui no canal: a completa digitalização da economia cria um sistema de controle tecnológico absoluto derrubando de vez o direito ainda constitucional à inviolabilidade da privacidade e da intimidade - uma vez que o sistema registrará toda e qualquer transação de dinheiro digital que seja feita por qualquer cidadão. 

Por outro lado, qualquer cidadão que não esteja devidamente registrado na República Federativa do Brasil e no Banco Central do Brasil, não poderá acessar ao dinheiro digital - o que, hoje, no cenário contemporâneo, promete depender também de estar, ou não, vacinado supostamente contra o Covid-19 e ter um passaporte digital que o comprove.

Pessoas com poucos, ou nenhuns, conhecimentos tecnológicos ficarão impossibilitadas, ou terão imensas dificuldades em acessar ao dinheiro digital.

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Repare o leitor que não existe escolha para o cidadão: jamais se perguntou ao povo brasileiro, ou a qualquer outro povo de qualquer país (que tenhamos conhecimento), o ele que prefere: a extinção do dinheiro em espécie e a completa digitalização do sistema financeiro, ou a continuidade do dinheiro em espécie e de um sistema financeiro não digital funcionando simultaneamente com o sistema financeiro digital?

Por que, convenhamos: a face digital do sistema financeiro facilita imenso as nossas vidas!

O problema não é a digitalização do sistema financeiro: o problema é a COMPLETA digitalização do sistema financeiro e a imposição sem qualquer consulta popular de um modelo financeiro que afetará profundamente as relações humanas, o controle do Estado sobre os cidadãos e o controle do sistema financeiro nacional e internacional sobre cada pessoa, animal, produto e serviço.

Muitos economistas, financeiros e banqueiros defendem que o povo não tem capacidade para compreender a complexidade dos mecanismos financeiros que fazem um país funcionar nacional e internacionalmente e que, por isso, não vale a pena levar a público tais debates e decisões... mas será que todo o povo precisaria compreender os mecanismos, ou bastaria tornar transparente e público todo o processo que vai desde as propostas dos mecanismos, passando pelas discussões das propostas, até à aprovação, ou desaprovação das mesmas, de forma a que, quem compreende e se interessa por tais assuntos, pudesse acompanhar todo o processo e ter voz crítica-ativa em debates públicos sobre as propostas?

A falta de transparência dos processos que levam à instauração de tais mecanismos financeiros, a independência do Banco Central do Brasil e a crescente dificuldade em realizar auditorias ao sistema financeiro nacional, estes, sim, começam por ser os verdadeiros problemas no cenário aqui exposto.

Quais os verdadeiros perigos que se escondem por trás da completa digitalização do sistema financeiro? Podemos nomear, p.ex.:

▪ o controle tecnológico cada vez mais próximo do absoluto sobre cada vez mais detalhes da vida de cada vez mais pessoas

▪ a concentração de uma quantidade crescente de dados sobre cada vez mais detalhes sobre a vida de cada vez mais pessoas

▪ o acesso cada vez mais limitado e restrito à quantidade crescente de dados processados e armazenados por cada vez menos entidades e instituições, o que resulta em concentração de poder e privilégio no acesso à informação. 

▪ a impossibilidade, ou a extrema dificuldade de acesso ao dinheiro digital por parte de pessoas com pouco, ou nenhum, conhecimento tecnológico e por parte de pessoas, trabalhadores e empresas que, por qualquer razão, se tornam digitalmente ilegíveis para acessar ao seu próprio dinheiro.

▪ a vulnerabilidade que é a completa dependência na energia elétrica do funcionamento do sistema financeiro

▪ etc... 

Previsivelmente, surgem muitas vozes defensoras da completa digitalização do sistema financeiro - apresentando um rol de justificações relacionadas com segurança, economia, desburocratização e mais recentemente, ambiente - mas nenhuma delas parece interessada em propôr trazer esse debate para o domínio público.

Presentemente, a discussão da completa digitalização do sistema financeiro (e o fim do dinheiro em espécie) está acontecendo dentro de círculos institucionais fechados no Banco privado BIS, no FMI e nos Bancos Centrais em geral, sendo que, dada a proximidade de concretização dessa parte da agenda financeira internacional, cada vez mais Lives são apresentadas pelo BIS, pelo FMI, Banco Central do Brasil, etc., p.ex., em plataformas como o Youtube, falando sobre as CBDCs (Moedas Digitais de Bancos Centrais) e a completa digitalização do sistema financeiro.

Eles fazem o que querem porque ainda não alcançamos uma massa crítica de pessoas antenadas no que eles estão fazendo, no que já fizeram e no que estão, realmente, querendo fazer, exigindo transparência em todos os processos de decisão que afetam a vida da população em geral.

Mas estamos crescendo em número. Vamos em frente!

domingo, 15 de fevereiro de 2026

A palavra dinheiro não existe na Constituição de Portugal


E se a palavra dinheiro não consta da Constituição da República de Portugal (RP), logo, não existe na RP definição constitucional do significado de dinheiro.

A argumentação de que não existe uma definição constitucional do significado de dinheiro dentro do Governo deve-se à complexidade do seu significado, cai por terra quando definimos dinheiro como tradutor de relações comerciais.

O jeito que esta tradução de relações comerciais é feita é que pode ser simples, ou altamente complexa, livre, ou altamente condicionada por sistema legislativos e regulamentares impostos pelas organizações criminosas que são os sistemas de governança.

No entanto, o movimento do dinheiro está presente na Constituição da RP, sem que o dinheiro seja mencionado, ou o seu significado definido:

: derivados de Economi constam 85 vezes
: derivados de Financ constam 27 vezes

O Banco de Portugal (BP) chama dinheiro de Numerário e define este como:

Numerário - O que é | O numerário é o dinheiro em espécie, ou seja, as notas e moedas físicas em circulação utilizadas para realizar pagamentos. O numerário é um meio de pagamento:

: universal e de aceitação generalizada, ou seja, tem de ser aceite como meio de pagamento de bens e serviços, ao contrário dos cheques e dos cartões de pagamento, que podem não ser aceites pelos comerciantes

: de liquidez imediata, ou seja, o pagamento do bem ou do serviço é recebido de imediato.
Apesar de não definir o significado de dinheiro, a RP, através do BP, exige que o dinheiro em espécie (notas e moedas) emitido pela RP "tem de ser aceite como meio de pagamento de bens e serviços"; ou seja, nenhum português tem o direito e a liberdade de não reconhecer o dinheiro produzido pela RP+BC como forma de pagamento e o recusar: o reconhecimento do dinheiro da RP+BC como forma de pagamento é obrigatório!

Por isso é que, uma definição simples de dinheiro como tradutor de relações comerciais, não é feita, uma vez que deixa aberta a possibilidade de se criarem formas de tradução comercial que não utilizam qualquer mecanismo, ou produto, do sistema de governança que se impõem.

O Banco de Portugal inclui dinheiro em espécie (notas e moedas) na definição de Moeda Electrónica:

Moeda electrónica - O que é | Moeda electrónica é um valor monetário armazenado eletronicamente, que pode ser utilizado para efetuar operações de pagamento, isto é, depositar, transferir ou levantar fundos. O valor monetário deve corresponder ao montante de notas e moedas ou de moeda escritural que é entregue pelo adquirente da referida moeda (o cliente portador de moeda electrónica) ao emitente da mesma, tendo em vista a realização das operações de pagamento.
Se "o valor monetário deve corresponder ao montante de notas e moedas ou de moeda escritural que é entregue pelo adquirente da referida moeda", onde estão todas as notas, as moedas  e as moedas escriturais correspondentes a todo o €uro digital em circulação em Portugal e na Europa?

Ou seja: qual é o lastro do dinheiro digital do Governo?

O Código Civil de Portugal menciona dinheiro 50 vezes, sem definir o seu significado.

Brasil

Dinheiro é mencionado 7 vezes na Constituição da República Federativa do Brasil (RFB), sem que haja uma definição constitucional do significado do mesmo.

Economi e seus derivados são mencionados 193 vezes.

Financ e seus derivados são mencionados 342 vezes.

No Código Civil da RFB, dinheiro é mencionado 24 vezes, sem que haja uma definição do significado do mesmo.

Curiosidade: o texto da aba da página da Constituição da República Portuguesa contém um erro de português: "Potuguesa". 

quinta-feira, 26 de junho de 2025

O sistema monetário e financeiro da próxima geração


Foi liberado o 3° capítulo do Relatório Económico Anual do BIS sobre o futuro do sistema financeiro... 


... e sem surpresas, não precisamos inventar nada porque, actualmente, eles dizem-nos o que estão fazendo e o que estão projectando: um modelo de controle tecno-social absoluto.

O relatório completo será liberado dia 29.Jun.2025.

III. O sistema monetário e financeiro
da próxima geração
24.Jun.2025 - ORIGINAL


Principais conclusões

A tokenização representa uma inovação transformadora que aprimora o antigo e viabiliza o novo. Ela abre caminho para novos arranjos em pagamentos internacionais, mercados de valores mobiliários e muito mais.

Plataformas tokenizadas com reservas do banco central, moeda de bancos comerciais e títulos do governo no centro podem lançar as bases para o sistema monetário e financeiro da próxima geração.

As stablecoins oferecem alguma promessa em termos de tokenização, mas não atendem aos requisitos para serem o pilar do sistema monetário quando comparadas aos três principais testes de unicidade, elasticidade e integridade.

Introdução

A história do sistema monetário e seu papel na economia são de evolução contínua. Ao longo da história, o progresso tecnológico no sistema monetário acompanhou grandes saltos na atividade econômica. A inovação do dinheiro registrado em livros contábeis, gerenciados por intermediários confiáveis, deu origem a novos instrumentos financeiros que ajudaram o comércio a prosperar. Os livros-razão em papel deram lugar aos digitais, trazendo profundas mudanças para a economia e a sociedade.

Os últimos anos testemunharam uma onda de inovação digital que abriu possibilidades sem precedentes para o dinheiro e as finanças. Este capítulo discute como os bancos centrais podem iluminar o caminho para a próxima geração do sistema monetário e financeiro. Este é um sistema projetado para expandir a qualidade, o escopo e a acessibilidade dos serviços financeiros, alavancando tecnologias inovadoras apoiadas por uma regulamentação sólida, preservando a base sólida do sistema existente: as reservas do banco central como um ativo confiável de liquidação final, apoiando a inovação do setor financeiro privado.

No cerne dessa visão está o conceito de tokenização, o processo de registrar reivindicações sobre ativos reais ou financeiros que existem em um livro-razão tradicional em uma plataforma programável. A tokenização representa a próxima progressão lógica na evolução do sistema monetário e financeiro, pois permite a integração de mensagens, reconciliação e transferência de ativos em uma única operação integrada. Seu potencial reside na capacidade de unir operações que abrangem dinheiro e outros ativos que residiriam na mesma plataforma programável. Isso poderia ser possível graças a um novo tipo de infraestrutura de mercado financeiro - um "livro-razão unificado" - que pode ou não utilizar a tecnologia de livro-razão distribuído (DLT). Ao reunir reservas tokenizadas de bancos centrais, moeda de bancos comerciais e ativos financeiros no mesmo local, um livro-razão unificado pode aproveitar todos os benefícios da tokenização.

A tokenização está pronta para aprimorar o antigo, superando os atritos e ineficiências da arquitetura atual e possibilitar o novo, abrindo novas possibilidades de contratação. Em pagamentos internacionais, a tokenização poderia substituir a complexa cadeia de intermediários e a atualização sequencial de contas nas transações bancárias correspondentes atuais por um processo único e integrado. Juntamente com as ferramentas de conformidade de última geração disponibilizadas na plataforma, a tokenização reduziria os riscos operacionais, atrasos e custos. Da mesma forma, aprimoraria os mercados de capitais, permitindo a execução contingente de ações em termos de gestão de garantias, ajustes de margem e acordos de entrega versus pagamento.

A confiança no dinheiro é fundamental para essa visão de futuro. A base de qualquer acordo monetário é a capacidade de liquidar pagamentos ao par, ou seja, pelo valor integral. O dinheiro é insensível à informação, pois os agentes o utilizam "sem perguntas", ou seja, sem a devida diligência. Dessa forma, o dinheiro sustenta a coordenação na economia por meio do conhecimento comum de seu valor por todos os agentes, assim como uma linguagem comum coordena as interações sociais. Se esse conhecimento comum falhar, a coordenação também falha, e o sistema monetário se torna desequilibrado, com grandes custos sociais. O conhecimento comum do valor do dinheiro tem uma sigla - a "unicidade do dinheiro" - onde o dinheiro pode ser emitido por diferentes bancos e aceito por todos sem hesitação. Isso ocorre porque é liquidado ao par contra um ativo comum seguro (reservas do banco central) fornecido pelo banco central, que tem o mandato de agir no interesse público.

Além da unicidade, considerações práticas sugerem dois outros testes de viabilidade como espinha dorsal do sistema monetário. Um é a elasticidade, referindo-se ao dinheiro fornecido de forma flexível para atender à necessidade de pagamentos de grande valor na economia, de modo que as obrigações sejam cumpridas em tempo hábil sem que o impasse se instale. O outro é a integridade do sistema contra crimes financeiros e outras atividades ilícitas.

Os sistemas modernos de liquidação bruta em tempo real (LBTR) são o exemplo canônico da necessidade de elasticidade. Em um sistema bancário de dois níveis, o banco central está pronto para fornecer reservas às instituições financeiras elasticamente à taxa básica de juros, contra garantias de alta qualidade. Quando necessário, o banco central pode fornecer liquidez para liquidação intra-diária, permitindo que as transações sejam liquidadas em tempo real. Os bancos, por sua vez, podem decidir quanto dinheiro (na forma de depósitos) desejam fornecer à economia real. É importante ressaltar que, em um sistema bancário de dois níveis, os bancos podem emitir moeda sem o respaldo total das reservas bancárias, seja na forma de moedas de ouro ou prata (como era o caso em regimes monetários lastreados em ouro, ou prata) ou como reservas bancárias (como é o caso no regime de moeda fiduciária atual). A enorme magnitude dos valores de pagamento em uma economia moderna significa que transportar moedas de ouro e prata, manter pilhas de dinheiro ou reter grandes quantias em contas pré-financiadas para quitar obrigações são simplesmente impraticáveis - seriam receitas para o impasse do sistema de pagamentos.

Outra manifestação concreta da elasticidade é o papel do sistema bancário na criação de moeda por meio de atividades de empréstimo, incluindo cheque especial e linhas de crédito. Por meio dos cheques especiais, pagamentos com valores que excedem os saldos dos depósitos podem ser feitos a critério do pagador, enquanto as linhas de crédito fornecem liquidez sob demanda. Isso permite que obrigações complexas e interligadas na economia sejam cumpridas em tempo hábil.

O terceiro teste é o da integridade do sistema monetário contra atividades ilícitas. Esse imperativo decorre do reconhecimento de que um sistema monetário aberto a abusos generalizados, como fraudes, crimes financeiros e outras atividades ilícitas, não inspira confiança na sociedade nem resiste ao teste do tempo. Considerações sobre a soberania monetária (a capacidade de uma jurisdição de tomar decisões e exercer influência sobre o sistema monetário dentro de suas fronteiras) diante de uma potencial substituição de moeda levantam questões relacionadas.

Comparado aos três testes, o atual sistema monetário de dois níveis, com o banco central em seu núcleo, se destaca em relação a outros modelos ao garantir que o dinheiro seja adequado à sua finalidade. Os bancos centrais fornecem a forma mais elevada de dinheiro, apoiam a finalidade da liquidação e garantem a estabilidade e a confiança na unidade de conta. Os bancos comerciais e outras entidades do setor privado prestam serviços cruciais para apoiar a atividade econômica dentro e fora das fronteiras, facilitando os meios de pagamento que suportam as transações econômicas. Há, sem dúvida, um espaço considerável para melhorias no sistema atual. A visão aqui delineada dá uma ideia do que é possível. No entanto, os méritos da arquitetura central do sistema, com o banco central no centro, devem ser reconhecidos e preservados.

O sistema monetário de próxima geração, com reservas do banco central no núcleo, promete trazer benefícios de longo alcance. Um passo fundamental para essa transformação é a trilogia de reservas tokenizadas do banco central, moeda tokenizada do banco comercial e títulos públicos tokenizados, todos residindo em um livro-razão unificado. Juntos, esses elementos podem formar a base de um sistema financeiro tokenizado vibrante, liberando novas eficiências e capacidades. As reservas tokenizadas do banco central fornecem um ativo de liquidação estável e confiável para transações de atacado em um ecossistema tokenizado, garantindo a unicidade do dinheiro. Elas também podem permitir a implementação da política monetária em uma plataforma tokenizada. O dinheiro bancário comercial tokenizado poderia se basear no comprovado sistema de dois níveis, oferecendo novas funcionalidades e preservando a confiança e a estabilidade. Os títulos públicos tokenizados, como base dos mercados financeiros, poderiam aumentar a liquidez e apoiar diversas transações financeiras, desde a gestão de garantias até operações de política monetária.

O papel que os criptoativos e as stablecoins desempenharão no sistema monetário e financeiro da próxima geração é uma questão em aberto. Os instrumentos criptográficos operam com princípios notavelmente diferentes dos do sistema monetário convencional. Eles buscam redefinir o dinheiro de acordo com uma noção descentralizada de confiança, repudiando intermediários em favor de transações ponto a ponto. Apesar dessa promessa inicial, as criptomoedas sem lastro deram origem a um ecossistema onde uma nova geração de intermediários que operam carteiras hospedadas (ou seja, carteiras de criptoativos para as quais um provedor terceirizado gerencia chaves privadas e ativos) desempenha o papel dominante. Além disso, com suas grandes oscilações de preço, elas não se assemelham a um instrumento monetário estável, mas sim a um ativo especulativo.

As stablecoins foram projetadas como uma porta de entrada para o ecossistema criptográfico, prometendo valor estável em relação às moedas fiduciárias (predominantemente o dólar americano) enquanto operam em blockchains públicas. Como meio de transação no ecossistema criptográfico, e em parte devido ao seu mecanismo de lastro, elas exibem alguns atributos de dinheiro. Sua trajetória no ecossistema de criptomoedas também levou a casos de uso como rampas de entrada e saída para criptoativos e, mais recentemente, como instrumento de pagamento transfronteiriço para residentes em economias de mercados emergentes sem acesso ao dólar. No entanto, as stablecoins apresentam baixo desempenho quando avaliadas em relação aos três testes para servir como pilar do sistema monetário.

Como instrumentos digitais ao portador em blockchains públicas sem fronteiras, as stablecoins têm sido a escolha preferencial para uso ilícito, visando contornar as salvaguardas de integridade. O pseudonimato das blockchains públicas, onde as identidades dos usuários individuais são ocultadas por trás de endereços, pode preservar a privacidade, mas também facilita o uso ilegal. A ausência de padrões de "conheça seu cliente" (KYC), como os do sistema financeiro tradicional, agrava esse problema. A natureza ao portador das stablecoins permite que elas circulem sem a supervisão do emissor, levantando preocupações sobre seu uso para crimes financeiros, como lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo. Embora a demanda por stablecoins possa persistir, elas apresentam baixo desempenho no teste de integridade em nível de sistema.

As stablecoins também apresentam desempenho insatisfatório em termos de unicidade e elasticidade. Como instrumentos digitais ao portador, elas não possuem a função de liquidação oferecida pelo banco central. As moedas em posse de stablecoins são identificadas com o nome do emissor, assim como as notas privadas que circulavam na era do Free Banking nos Estados Unidos, no Séc. XIX. Dessa forma, as stablecoins costumam ser negociadas a taxas de câmbio variáveis, o que prejudica a unicidade. Elas também não conseguem cumprir o princípio de não questionamentos do dinheiro emitido por bancos. Sua falha em termos de elasticidade decorre de sua estrutura: elas são normalmente lastreadas por um montante nominalmente equivalente de ativos, e qualquer emissão adicional exige pagamento antecipado integral pelos detentores, o que prejudica a elasticidade ao impor uma restrição de adiantamento de dinheiro.

As stablecoins levantam uma série de outras preocupações. Por um lado, existe uma tensão inerente entre a sua promessa de sempre oferecer conversibilidade par (ou seja, ser verdadeiramente estável) e a necessidade de um modelo de negócio lucrativo que envolva liquidez ou risco de crédito. Além disso, a perda de soberania monetária e a fuga de capitais são grandes preocupações, particularmente para economias de mercados emergentes e em desenvolvimento. Se as stablecoins continuarem a crescer, poderão representar riscos para a estabilidade financeira, incluindo o risco de vendas antecipadas de ativos seguros. Por fim, as stablecoins emitidas por bancos podem introduzir novos riscos, dependendo dos seus arranjos legais e de governança - um tema em debate contínuo.

Embora o papel futuro das stablecoins permaneça incerto, o seu fraco desempenho nos três testes sugere que podem, na melhor das hipóteses, desempenhar um papel subsidiário. Um princípio orientador em qualquer papel deste tipo seria canalizar casos de uso legítimo para o sistema monetário regulamentado de uma forma que não comprometa a estabilidade financeira nem as vantagens comprovadas do sistema atual. O uso ilícito permanecerá fora do cordão regulatório.

A sociedade tem uma escolha. O sistema monetário pode se transformar em um sistema de próxima geração, construído sobre fundamentos comprovados de confiança e infraestruturas programáveis ​​e tecnologicamente superiores. Ou a sociedade pode reaprender as lições históricas sobre as limitações do dinheiro instável, com custos sociais reais, adotando um desvio envolvendo moedas digitais privadas que não passam no triplo teste de unicidade, elasticidade e integridade. Ações ousadas de bancos centrais e outras autoridades públicas podem impulsionar o sistema financeiro no caminho certo, em parceria com o setor financeiro.

Como administradores da estabilidade monetária e financeira, os bancos centrais precisam impulsionar essa transformação. Eles podem fazer isso de quatro maneiras. Primeiro, podem articular uma visão sobre quais características-chave do sistema financeiro atual devem ser replicadas em um ecossistema tokenizado. Segundo, podem fornecer as estruturas regulatórias e legais necessárias para garantir o desenvolvimento e a adoção seguros e sólidos das finanças tokenizadas. Terceiro, podem fornecer os ativos e plataformas fundamentais necessários para um sistema financeiro tokenizado. Mais importante ainda, tal sistema exigirá liquidação em uma forma tokenizada de reservas do banco central. Finalmente, podem promover parcerias público-privadas para encorajar a experimentação conjunta e unir os esforços da indústria.

Dinheiro e confiança

O dinheiro é uma convenção social fundamental para o funcionamento de qualquer economia moderna. Ele é sustentado por uma expectativa compartilhada de que o dinheiro aceito para pagamentos hoje também será aceito para pagamentos amanhã. Isso requer confiança no dinheiro, sua estabilidade e sua capacidade de se adaptar à atividade econômica.

O eixo dos arranjos monetários modernos é a liquidação final ao par, o que significa que o preço do dinheiro em relação à unidade de conta é fixado em um. Às vezes chamado de unicidade do dinheiro, este é o principal mecanismo de coordenação da economia que sustenta a convenção social do dinheiro. Quando a unicidade é mantida, o dinheiro é insensível à informação, pois os agentes da economia o aceitam ao par sem a devida diligência, ou seja, sem questionamentos.

Nos sistemas monetários modernos, a liquidação de pagamentos ao par é sustentada por uma estrutura de dois níveis, com as reservas do banco central e a moeda do banco comercial desempenhando papéis complementares. Os bancos centrais garantem a confiança no dinheiro, um bem público fundamental, fornecendo o meio seguro definitivo para a liquidação de transações na forma de reservas do banco central. Em caso de pressões de liquidez de curto prazo, os bancos centrais também atuam como credores de última instância para os bancos. Enquanto isso, os bancos comerciais emitem moeda para o setor privado na forma de depósitos. A regulação e a supervisão prudenciais garantem sua segurança e solidez, com sistemas de garantia de depósitos protegendo os depositantes em caso de falências bancárias. Essa divisão de papéis garante a estabilidade e a capacidade dos bancos de responder rapidamente às necessidades do setor privado. Além disso, ressalta a importância da capacidade do sistema de fornecer moeda de forma elástica e discricionária - um mecanismo estabilizador fundamental no sistema monetário. Nas economias modernas, os bancos centrais podem expandir seus passivos, aliviando o estresse para os agentes que usam esses passivos como moeda; os bancos comerciais podem expandir seus próprios passivos para aliviar as restrições de crédito para os agentes que usam passivos bancários como moeda.

A história mostra que a inovação do setor privado prospera com a estabilidade dos bancos centrais, cujo papel fundamental permanece tão crítico como sempre. Em virtude de serem garantidores da unicidade, os bancos centrais atuam como âncoras que sustentam a coordenação e o conhecimento comum sobre o valor da moeda. Fundamentalmente, a confiança nos bancos centrais permite que essa coordenação e conhecimento comum sejam alcançados em escala, atendendo às necessidades de uma economia de mercado crescente, diversificada e descentralizada.

A unicidade da moeda não é uma declaração sobre o risco de crédito embutido nos depósitos bancários, mas sim sobre o pagamento. Qualquer pagamento é efetuado ao par porque pode ser liquidado com reservas do banco central. Em outras palavras, a unicidade da moeda não implica que todos os passivos dos bancos comerciais sejam ou devam ser iguais em valor. Por exemplo, certificados de depósito negociáveis ​​ou títulos bancários podem ser negociados, e frequentemente o são, com spreads variáveis ​​em relação aos títulos do governo. Mas os pagamentos sempre são efetuados ao par, porque o banco central homogeneíza o risco de crédito dos depósitos de diferentes bancos, tornando-os um instrumento de pagamento uniforme.

A ênfase nos pagamentos e na estrutura de dois níveis do sistema monetário ajuda a dissipar um mal-entendido comum sobre o funcionamento do dinheiro moderno. "Enviar um pagamento" frequentemente evoca a imagem de uma transferência de um objeto ou fundos fluindo de um lugar para outro, em analogia à experiência relacionável de entregar uma nota ou moeda para pagamento. No entanto, em uma transação de pagamento típica, quando um cliente de um banco paga a um cliente de outro banco, nenhum objeto físico muda de mãos. Nenhum dinheiro "flui". Em vez disso, uma série de atualizações são feitas nas contas mantidas por intermediários e pelo banco central. Em um pagamento doméstico, há três atualizações de conta: o banco do remetente debita a conta do remetente, o banco do destinatário credita a conta do destinatário e o banco central credita o banco do destinatário e debita o banco do remetente. (Em um pagamento internacional, há mais etapas, conforme descrito abaixo.) O destinatário não adquire um direito sobre o banco do remetente. A unicidade é alcançada neste contexto porque a liquidação final ocorre nas contas do banco central. Na verdade, o pagamento é feito usando reservas do banco central, com finalidade. Isso permite que o beneficiário tenha mais depósitos em sua conta (ou seja, um direito maior sobre seu banco) em vez de qualquer novo tipo de direito. Conforme discutido em mais detalhes abaixo, isso contrasta com a situação quando um pagamento em stablecoin é recebido.

A confiança no dinheiro vai além de sua aceitação ao par e da execução de pagamentos. Também requer confiança no valor estável do dinheiro ao longo do tempo. A estabilidade de preços, alcançada por meio de uma inflação baixa e previsível, e a estabilidade financeira, que previne inadimplências em larga escala e interrupções no funcionamento do sistema financeiro, são essenciais para sustentar essa confiança. Instituições fortes sustentam esses objetivos. A independência do banco central garante estruturas de política monetária focadas na estabilidade de preços, e uma regulamentação financeira sólida e medidas macroprudenciais fornecem salvaguardas adicionais. Em um nível mais profundo, a confiança no dinheiro depende da sustentabilidade fiscal, visto que a capacidade do Estado de tributar e manter uma posição fiscal confiável, em última análise, respalda o valor do dinheiro. A história mostra que, sem essas bases, os regimes monetários podem entrar em colapso. Isso ressalta a importância de arranjos modernos que têm proporcionado estabilidade com sucesso na maioria das principais economias, apesar das recentes pressões inflacionárias globais.

Novas tecnologias não alteram a economia desses arranjos, mas trazem oportunidades importantes para fortalecer as características do dinheiro. A demanda persistente por novas funcionalidades do dinheiro sinaliza o apetite da sociedade pelos benefícios que tais tecnologias prometem. As autoridades públicas podem negligenciar essa realidade por sua conta e risco. O advento da tokenização pode mudar a forma como os registros de propriedade e as transferências de direitos são feitos. Nesse sentido, novas plataformas programáveis ​​que alavancam a tokenização do dinheiro, como livros-razão unificados, podem ser tão transformadoras quanto a mudança de livros-razão físicos para digitais. No entanto, manter a confiança, sustentada pela unicidade do dinheiro, exige um esforço constante por parte do banco central e de outras autoridades públicas. Alcançar essa transformação de forma responsável exigirá experimentação ousada e esforços cooperativos significativos dos setores público e privado.

Stablecoins e o imperativo da integridade

Como as novas formas de dinheiro digital se saem quando avaliadas em relação às lições que acabamos de discutir? Resta saber qual o papel que inovações como as stablecoins desempenharão no futuro sistema monetário. Elas oferecem novas funções de programabilidade, fácil acesso para novos usuários e recursos de pseudonimato. Mas as stablecoins não se destacam em relação às três características desejáveis ​​de arranjos monetários sólidos e, portanto, não podem ser o pilar do futuro sistema monetário. Apesar de suas limitações, algumas herdadas das criptomoedas de forma mais ampla, há uma demanda significativa por stablecoins (veja abaixo). Assim, elas sinalizam onde as respostas políticas podem ajudar a promover sistemas financeiros mais eficientes e resilientes para colher os benefícios das inovações tecnológicas. Tais respostas políticas podem garantir que os casos de uso legítimo sejam regulamentados adequadamente e que o uso ilícito seja bloqueado para proteger o sistema monetário e financeiro. No entanto, uma regulamentação adequada só pode resolver algumas falhas estruturais importantes que provavelmente persistirão, como as limitações impostas pelas restrições de adiantamento de dinheiro. Assim, mesmo um futuro de novas formas de dinheiro bem regulamentadas ainda exigiria âncoras de confiança adequadas para sustentar arranjos monetários sólidos.

A gênese das stablecoins foi a busca por uma base diferente para arranjos monetários, afastando-se de intermediários confiáveis ​​e caminhando em direção à descentralização. Criptoativos sem lastro, como o bitcoin, surgiram dessa mesma busca. Apesar do fascínio inicial da ideia, as criptomoedas deixam a desejar em várias características essenciais do dinheiro. Assim, os criptoativos sem lastro se estabeleceram como um ativo especulativo em vez de um meio de pagamento. Além disso, as características inerentes dos blockchains geram um trade-off fundamental entre descentralização, segurança e escalabilidade. Os blockchains funcionam anexando blocos de transações por consenso na rede descentralizada de validadores, que devem ser remunerados para desempenhar essa função, visto que a validação é custosa. Isso gera uma tensão entre estabelecer padrões rigorosos sobre o que conta como consenso e ter um sistema que alcance esse consenso em escala (Quadro A).

As stablecoins surgiram como uma porta de entrada e saída para o ecossistema de criptomoedas e um meio de permitir transações na blockchain sem a volatilidade inerente de outras formas de criptomoedas. Em resumo, são tokens de criptomoedas que residem em livros-razão descentralizados e prometem sempre valer um valor fixo em moeda fiduciária (por exemplo, um dólar). Ao contrário das criptomoedas sem lastro, a maioria das stablecoins é emitida por uma única entidade central. O conjunto de ativos de reserva do emissor que lastreia as stablecoins em circulação e sua capacidade de atender integralmente aos resgates respaldam essa promessa. As stablecoins podem diferir de acordo com o tipo de ativo lastreado. Existem três variantes principais para esse lastro: ativos de curto prazo denominados em moeda fiduciária, garantias em criptomoedas e arranjos algorítmicos. A discussão aqui se concentra na primeira variante, que representa a maior parte do mercado.

Apesar da frequente incapacidade de stablecoins de vários tipos de cumprirem sua promessa de conversibilidade nominal, elas continuam a atrair demanda. Isso fica evidente em seu crescimento notável, concentrado nas duas maiores stablecoins, USDT (Tether) e USDC (Circle) (Gráfico 1.A). A demanda por stablecoins é função tanto das motivações dos usuários quanto de algumas de suas características, incluindo acessibilidade, privacidade, seu papel como alternativa ao sistema financeiro atual, sua capacidade de facilitar o acesso a moedas estrangeiras e sua atratividade em pagamentos internacionais.

Primeiramente, as stablecoins são negociadas em blockchains públicas e sem necessidade de permissão, permitindo que qualquer pessoa com um dispositivo conectado à internet as acesse. Muitos usuários o fazem por meio de carteiras hospedadas fornecidas por corretoras de criptomoedas que realizam processos de integração, que, em princípio, devem ser semelhantes aos de bancos. Mas também é possível acessar stablecoins diretamente por meio de carteiras não hospedadas, que estão prontamente disponíveis para qualquer usuário com conexão à internet. Essas carteiras evitam interações com qualquer intermediário (seja do sistema de criptomoedas ou do sistema financeiro tradicional) e, portanto, não estão sujeitas a nenhuma verificação KYC. Com uma carteira não hospedada, os usuários realizam transações sem identificação e têm controle exclusivo por meio de uma senha (chave privada).

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Inovação Digital e o Futuro do Dinheiro

No Seminário de Perspectivas Empresariais do Instituto Tecnológico Autónomo de México (ITAM): Fintech (05.Fev.2021)...

Inovação digital e o futuro do dinheiro / Seminário Perspectivas Empresariais / Agustin Carstens, Administrador Geral, BIS / Fev.2021

... Agustin Carstens, Administrador Geral do Banco privado BIS - o Banco Central dos Bancos Centrais fez um discurso intitulado Inovação Digital e o Futuro do Dinheiro.

Inovação Digital e o futuro do dinheiro / Dinheiro e História / Bancos Centrais e confiança / Sistema de Pagamentos Atuais / Inovação digital / A história repete-se / Moeda Digital de Banco Central (CBDC) / Notas finais

Inovação Digital e o Futuro do Dinheiro
por Agustin Carstens
05.Fev.2021 - ORIGINAL
Todos as imagens deste artigo são slides da apresentação

Dinheiro e história

O dinheiro está evoluindo há milhares de anos. Para evitar a volatilidade e os custos da escassez de moeda-mercadoria, as sociedades adotaram reivindicações confiáveis ​​por dinheiro mais estável. No entanto, eles também aprenderam da maneira mais difícil que bancos comerciais e governos têm um incentivo para emitir em excesso, corroendo a confiança nessas reivindicações, prejudicando as economias e a sociedade. Conforme exemplificado pelo Banco do México, o Banco Central independente de hoje, com monopólio sobre a emissão de notas bancárias e mandato para estabilidade monetária, evoluiu por meio de tentativa e erro.

Etapas principais / 1.Da permuta à criação do dinheiro - Dinheiro é uma das maiores invenções humanas / 2.Dinheiro em espécie - Objetos escassos - Problemas: transações de alto custo, volatilidade em valor, escassez excessiva reduz flexibilidade. / 3.Dinheiro poiado por ativos - Notas de banco e moedas - Total recuo que acaba sendo diluído - Problemas: tendência para emitir excessivamente sem crises de apoio, abuso, financeira e econômica. / 4.Dinheiro fiduciário - Principal inovação institucional: Bancos Centrais - Emissor nacional único de moedas, sistema bancário forte institucional, operacional e legalmente - Problemas: no início, espisódios de abuso.    

Banco Central e confiança / "O Estado deverá ter um Banco Central que deverá ser autônomo no exercício de suas funções (...) O seu objetivo primário será assegurar a estabilidade  da busca do poder da moeda nacional" - Gazeta Oficial Federal, México, 1993.

A Moeda de Banco Central existe de acordo com a moeda emitida pelos bancos comerciais. Por meio dessa parceria público-privada, diferentes tipos de dinheiro desempenham papéis diferentes. Por meio do acesso a contas de reserva, operações de mercado e empréstimos de emergência nos Bancos Centrais, os bancos comerciais têm fortes raízes nas quais podem recorrer ao emitirem seu próprio dinheiro digital ao público.

Sistemas de pagamentos de hoje

Sociedade público-privada de dinheiro / Folha de balanços de Banco Central: Reservas estrangeiras - Notas de banco e moedas - Títulos - Outros - Depósitos de banco / Clareamento [tradução direta usualmente traduzida como compensação] diário na folha de balanço do Banco Central - Finalidade - Liquidez - Último recurso / Uso de dinheiro secundário - Cheques - Cartões de crédito/débito - ATMs [Saques automáticos de caixas] - Transferências - SPEI [Sistema de Pagamentos Eletrônicos Interbancários] - CoDi [Plataforma mexicana de Pagamentos Digitais semelhante ao PIX, no Brasil].

Inovação Digital

Essa parceria também foi a base para inovações digitais que se apoiam mutuamente. Ao oferecer sistemas de pagamento melhores e mais rápidos, os Bancos Centrais proporcionaram aos bancos e às empresas de pagamento plataformas para oferecer novos produtos mais seguros e convenientes ao público. No México, vimos isso com os sistemas SPEI [Sistema de Pagamentos Eletrônicos Interbancários] e CoDi [Plataforma mexicana de Pagamentos Digitais semelhante ao PIX, no Brasil]. No entanto, a inovação digital não se limita à parceria tradicional. Outras inovações foram impulsionadas pela atração de dados de pagamentos e até mesmo, para criptomoedas, por um desejo explícito de interromper o sistema atual.

Revolução digital, onde está a chave? / Capacidade tecnológica para eficiente e barato: - Capturar dados - Processar dados - Armazenar dados - Transmitir dados / Dinheiro é informação / A mais fácil entrada de inovação perturbadora no sistema financeiro é através de: - Sistemas de pagamento - Moedas digitais.

Inovações recentes em sistemas de pagamento / Desenvolvimentos líderes de Bancos Centrais - Sistemas RTGS (SPEI) - Sistemas de pagamento rápidos (CoDi) / Outras inovações (fintech) - Sistemas de pagamento bancários (apps) - Provedores de sistemas privados (pagamentos móveis, plataformas).

Sistemas de pagamento em tempo-real apoiado por Bancos Centrais / Difusão de tecnologias de pagamento¹ - Número de países - Sistemas RTGS - Sistemas de pagamento rápido - ¹A linha tracejada corresponde a implementação projetada. - Fonte: CPMI, Desenvolvimento em pagamentos rápidos de varejo e implicações para sistemas RTGS, próximo.

Muitas inovações digitais estão reaprendendo as lições do passado que impulsionaram a evolução do nosso sistema atual. Criptomoedas como o bitcoin podem ter escassez, mas isso gerou a mesma volatilidade e custos vistos com o dinheiro das commodities. A mudança para stablecoins parece que a história se repete, tanto na necessidade de uma reivindicação para estabilizar o dinheiro, mas também em como essas reivindicações podem ser minadas.

Inovação em moedas digitais / Coleção de itens de Yap, Micronésia 2020, Museu de Artes e Ciências Aplicadas

3 Fenômenos recentes representativos em moedas digitais / 1.Bitcoin - entre outras (cripto-moedas) - Sem sistema bancário - Regras não-claras de emissão, baseadas em arranjos tecnológicos - Alta volatilidade em valor, pouco uso como meio de pagamentos (lavagem de dinheiro) - Semelhante a dinheiro em espécie / 2.Ativos apoiados por moedas (moedas estáveis) - Exemplo: Libra/Diem - Valor estável de "importados" de moeda doméstica e outros ativos financeiros - Problemas históricos relacionados para sistema bancário inadequado - Anti-Lavagem de dinheiro e regras anti-terrorismo. / 3.Moedas Digitais de Banco Central (CBDCs).

Interesse em Moedas Digitais de Banco Central está crescendo / Tempo de discursos e relatórios das CBDC - 12 meses de soma rolante / Interesses de Pesquisa Google ao longo do tempo - Intensidade de busca: Bitcoin - Libra do Facebook - Moeda Digital de banco Central.

O que são CBDCs? / Um novo tipo de viabilidade de banco Central / Folha de balanços de Banco Central - Reservas internacionais - Notas de banco e moedas - Títulos - Depósitos bancários - Outros - CBDC / Representações possíveis - 1.Contas no Banco Central - Individuais (varejo) - Intermediário (atacado) / 2.Tokens - Varejo - Atacado / Elas pretendem uma representação tecnológica superior da moeda nacional.

Uma alternativa aos tipos de dinheiro falidos de ontem na forma digital poderia ser a Moeda Digital de Banco Central (CBDC). Uma quantidade significativa de pesquisas está sendo aplicada para avaliar o uso de novas tecnologias para uso por bancos comerciais (atacado) e disponibilizar ao público o Dinheiro Digital do Banco Central (uso geral). Ainda há muitas perguntas sem resposta, especialmente para jurisdições com sistemas financeiros grandes e complexos, mas o BIS está ajudando a impulsionar a colaboração para respondê-las. Dois exemplos recentes incluem: 

(i) Projeto Helvetia, uma colaboração do Cubo de Inovação do BIS que faz experiências com CBDC de atacado; e 

(ii) um relatório sobre CBDC de propósito geral com um grupo de Bancos Centrais, estabelecendo os princípios fundamentais.

Assuntos-chave a serem tratados / 1.Decisão soberana de cada país / 2.Grau de autonomia - privacidade de dados / 3.Anti-lavagem de dinheiro, controles anti-terrorismo / 4.Competição: Bancos Centrais e bancos comerciais, ou Sociedade público-privada com múltiplos intermediários / 5.Transmissão de política monetária / 6.Impacto na estabilidade financeira / 7.Inclusão financeira / 8.Segurança cibernética / 9.Eficiência técnica extrema - sem margem de erro / 10.Cooperação internacional - Pagamentos internacionais (remessas) - Fluxo de capital.

Principal Desafio Internacional - papel do BIS /  Função de coordenação e cooperação / Esforços de disseminação de inovação e conhecimento.

Centros de Cubos de Inovação do BIS / Centro de Cubo existente / Novo Centro de Cubo / Parceria estratégica / Grupo consultivo das Américas

Nosso trabalho continuará, especialmente com a expansão do Cubo de Inovação do BIS. As inovações digitais também continuarão. No entanto, nem todas as inovações são as mesmas, ou iguais. Precisamos de inovação no que o dinheiro pode fazer e não tentar reinventá-lo. O dinheiro continuará a evoluir e essa evolução deve ser construída com base na confiança."

Notas conclusivas / Nem todas as inovações são iguais / Encorajar a inovação do que o dinheiro pode fazer, não tentar reinventá-lo / Evolução com confiança.

-- FIM DA TRADUÇÃO --


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